Assim ao dia 10 de Junho existe uma distribuição de medalhas, condecorações, aonde o País dá o prémio que alguns acham que certos portugueses têem direito.
Claro que a ideia merecia ser desenvolvida por um Ministério que tem tido uma grande preocupação em nada contribuir para aquilo que ele próprio existe. Daí a passar a para o Dia do Cheque foi um passo.
Artigo de opinião no Público de 2008.08.06:
Uma lógica mercantil só agrava a falência do sistema de ensinoNuno Pacheco - 20080806
A ideia, importada, de pagar prémios de 500 euros aos melhores alunos do secundário só acentua a falência deste sistema de ensino. Não o salva nem o melhora, só agrava a sua agoniaAs escolas devem pagar aos alunos que tirem boas notas? Esta pergunta foi, há dias, título de um artigo do PÚBLICO (edição de domingo, 3 de Agosto) e suscitou, no próprio texto, várias reservas e algumas reacções de indignação. Curiosamente, num país em que tanto e sobre tanta coisa se discute, ficou-se por aí. A iniciativa, anunciada pelo Ministério da Educação, de instituir um prémio anual de 500 euros para o aluno que em cada escola tenha concluído o secundário com melhor aproveitamento (ou com melhores notas, o que nem sempre é a mesma coisa), afundou-se no silêncio.
Mas devia ter suscitado uma forte discussão. Porque a simples ideia de tornar a escola permeável a tais prémios é, no mínimo, inquietante. Têm razão os que, perante tal notícia, falaram em "deturpação de valores" ou em "truque ridículo". Porque, a pretexto de valorizar (é o ministério que o diz) "o mérito, a dedicação, o esforço no trabalho e desempenho escolares" dos alunos, o que se pretende é, na verdade, reduzir as margens de insucesso à custa de dinheiro que, em lugar de ser investido nas escolas e para melhorar a qualidade do seu ensino, é entregue num envelope a cada aluno como se fosse um brinde de um concurso televisivo. Ora mal vai a escola que não consegue fazer da aprendizagem um valor em si, prémio bastante para quem aprende mais e melhor.
O que fará o aluno com o dinheiro? Esquece de imediato a escola e vai comprar uma consola de jogos, que certamente o diverte mais. Pior: passa a trabalhar com um único fito: o de receber o cheque, não o de se preparar para a vida. Porque a vida que a escola já lhe ensina fica reduzida a isto: o conhecimento serve apenas para ganhar dinheiro.
Claro que o ministério não institui só o cheque, também institui um diploma. Mas o aluno há-de preferir o primeiro ao segundo, porque tal "moral" a isso o leva. Diplomas há muitos, cheque há só um. Ou dois, no máximo, em cada escola (o diploma prevê que os cursos científico-humanísticos e os cursos profissionais/tecnológicos tenham, em cada ano, um cheque de 500 euros para cada um, para a melhor classificação final).
No Brasil, em 2007, este tema foi muito discutido. Uma faculdade paulista tinha má classificação nos rankings. Solução? Dar dinheiro aos alunos. Uns acharam bem, outros ficaram aterrados. Uma aluna ouvida pelo jornal Folha de São Paulo disse ter ficado estarrecida ao abrir o envelope. Sentia-se como se comprassem o seu conhecimento. Para ela, faria muito mais sentido que a escola investisse na sua própria infra-estrutura. Mas o responsável pela faculdade defendeu-se. Não queria ter problemas e queria, acima de tudo, resultados. Assim, se não conseguia convencer os alunos a participar nos exames nacionais (o Enade), pelo menos comprava a sua "adesão" a tal sacrifício.
E por cá? O meio milhão de euros que o ministério vai investir em cheques, que serão gastos em tudo menos em educação, há-de evaporar-se rapidamente. A escola continuará mal, porque é essa a sua triste sina. E ninguém tirará proveito de mais esta desastrada medida disfarçada de investimento. Se é preciso melhorar o desempenho, torne-se o ensino compensador. Distribuam-se diplomas, sim, mas faça-se com que os alunos sintam que eles são mais do que um papel lustroso. Instituam-se, se for preciso, distinções ou quadros de honra nas escolas. Mas não se confunda tal prática com a venda a retalho do conhecimento. A ministra quer que o dia 12 de Setembro seja, já este ano, o Dia do Diploma. Mas o papel que tristemente assinou fará dele o Dia do Cheque.
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