Artigo de opinião no Público de 20080802:
A morte de mais um jornal diárioJosé Manuel Fernandes - 20080802
Quando um jornal perde o respeito dos seus leitores, passa a ser uma questão de tempo saber quando desapareceráTorna-se difícil perceber como é que se encerram as instalações de um jornal, se dispensam todos os seus trabalhadores e, ao mesmo tempo, se diz que este vai regressar, remodelado, daqui por um mês. Contudo, foi isso que aconteceu anteontem com O Primeiro de Janeiro. E isso foi lido como representando a morte definitiva daquele diário portuense mais do que centenário.
Mas a verdade é mais dura: há mais de uma década e meia que O Primeiro de Janeiro já não existia. Nem sequer como sombra do que chegou a ser o mais respeitado diário do Porto. Comprado por um grupo de investidores ligados a pequenos jornais regionais, do velho título sobrava pouco mais do que o cabeçalho. Mas a decadência começara antes, sinal de que a memória do passado, por mais glorioso que este tenha sido, não é garantia de futuro. O futuro faz-se no presente, e O Primeiro de Janeiro começou a perdê-lo quando, sobretudo nos anos que se seguiram ao 25 de Abril, se afastou da linha independente, liberal e de aposta no rigor e seriedade que havia feito dele o jornal de referência do Porto.
Nascido depois da "janeirinha" de 1868, um movimento de protesto que levaria à queda do Governo de Fontes Pereira de Melo e ficou associado ao fim do período conhecido por Regeneração. O jornal nasceu na sequência desse movimento e, como muitas publicações da época, começou por ser essencialmente um folheto político, só passando a ser um jornal de características mais profissionais em 1870. O seu período de ouro seria vivido entre as décadas de 1940 e 1960, sob a direcção de Manuel Pinto de Azevedo, época em que apostou no noticiário internacional e criou um suplemento cultural, Das Artes, das Letras, onde colaborariam os mais importantes autores da época.
Com uma linha editorial favorável à causa dos Aliados durante a II Guerra Mundial e uma orientação mais liberal numa época de censura, O Primeiro de Janeiro começou a perder terreno quando, sob a direcção de Freitas Cruz, o rival Jornal de Notícias se tornou no grande diário popular das causas do Grande Porto. Com a revolução, numa época em que a imprensa se politizou até limites hoje intoleráveis, o velho diário foi gradualmente perdendo o rumo e os leitores. E entrou na mesma espiral destrutiva que levou ao fecho de tantos outros títulos, com ciclos sucessivos de desinvestimento, logo de perda de qualidade, logo de perda de leitores e de bons anunciantes. Só se estranha como, mesmo assim, sobreviveu até hoje - ou talvez não se estranhe, porque nem sempre terá sido pelas melhores razões.
Infelizmente tem sido este o destino de milhares de diários um pouco por todo o mundo, por vezes num processo de saudável renovação - se O Primeiro de Janeiro mantivesse em 1990 a mesma qualidade que fizera a sua diferença, talvez não tivesse havido espaço para a afirmação do PÚBLICO... -, as mais das vezes vítimas de um mercado adverso onde os erros se pagam caro.
Sobretudo os erros que desvirtuam o que deve a marca de água de qualquer publicação: a qualidade e identidade do seu jornalismo.Se alguma lição podemos tirar do destino de O Primeiro Janeiro é que desviar-se de uma linha que se afirmara por ser independente e respeitada é sempre fatal para um jornal com leitores exigentes, como era o seu caso.
P.S. A independência é uma das qualidades intocáveis do jornalismo de referência, por isso é de lamentar que haja quem procure, pela manipulação ou pelo boato, atacar este espaço de liberdade e frontalidade que é o do PÚBLICO. Ontem uma colunista instrumentalizou o conteúdo de uma resposta de Pacheco Pereira ao Diário de Notícias para "provar" que neste jornal haveria "uma cruzada declarada contra José Sócrates". Ora Pacheco Pereira começa por responder "sim" a uma pergunta em que essa hipótese era colocada, mas logo a seguir clarifica: "Não digo que haja uma cruzada, acho que o jornal fez uma coisa corajosa que é ter quebrado um tabu que nunca teve razão para existir." Em causa estava termos noticiado as dúvidas sobre a licenciatura de José Sócrates, e Pacheco Pereira até conclui a resposta manifestando-se preocupado com "o silêncio incomodado dos outros órgãos".
Como se isso não fosse suficiente, foi posto a correr o boato de que eu próprio teria jantado com um político conhecido no dia de uma eleição importante, assim se provando que estava comprometido com ele. Quem pôs a correr e quem alimentou o boato teve azar: por princípio, não revelo onde e com quem janto em privado, mas nesse dia, por coincidência, estive num jantar de gala, público, pelo que posso revelar que ele teve lugar numa bela cidade a uns três mil quilómetros de Lisboa.
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