sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Damião de Góis e a estátua equestre

Nos dias que passam ainda aparecem uns certos "maduros" que, não tendo estado no local e no momento para que pudessem ser testemunhas oculares, nem tendo elementos que possam ser discutidos, analisados e, se válidos, admitir uma nova hipótese, lançam atoardas para o ar e atingem aqueles que já não podem defender-se directamente.

A carta ao director do Público que se transcreve é mais um exemplo.




CARTAS AO DIRECTOR
- 20080725

A credibilidade de Damião de Góis

Neste espaço, um leitor, descrente de inovações em Ciência e História, pretendeu beliscar uma dupla credibilidade: a de Damião de Góis, que descreve com algum detalhe o episódio da "estátua equestre" encontrada pelos portugueses na ilha do Corvo, e o historiador, no papel de autor do romance O Cavaleiro da Ilha do Corvo, que, embora em tons de ficção, fá-lo com a segurança e credibilidade que lhe confere uma investigação documental de centenas de referências bibliográficas, de Aristóteles à pesquisa actual, disponível ao leitor no final do citado livro.

Ao modo leviano com que o leitor tenta anular o testemunho do insígne humanista e cronista da corte manuelina acumula-se a fácil inferência de que Damião de Góis "não viu" os destroços do monumento, que D. Manuel I mandou guardar nos aposentos régios do Paço da Ribeira. Não viu? Como o prova? Se houve alguém que à época tivesse provado tão de perto como soberano, esse foi certamente o jovem Damião, pagem, irmão de Frutuoso de Góis, ambos íntimos da câmara régia. Não temos, no depoimento de Góis, nomes, detalhes e testemunhos acessórios que se corroboram entre si? Desde o arquitecto Duarte d'Armas, que el-rei mandou ao Corvo fazer o desenho da estátua, aos pedreiros enviados ao ilhéu com a incumbência de trazerem o monolito para Lisboa, passando pelo donatário Pedro da Fonseca, que, em 1529, se deslocou ao Corvo para recuperar uma legenda em caracteres não-latinos e que fora descoberta no sopé onde antes existira a estátua do cavaleiro "com traços africanos", seguindo a descrição de Góis. E o mapa dos irmãos Pizzigani, de 1367, que confirma a tradição árabe das estátuas-marco no centro do Atlântico?Ou seja, o autor da Crónica do Príncipe D. João é digno de crédito para descrever a chegada do primeiro rinoceronte a Lisboa; mas já não serve quando relata a chegada ao Paço dos destroços do monumento, que a imperícia dos pedreiros provocara... E sobre as moedas, "que ninguém viu", não existem delas sobejas imagens e referências publicadas por revistas da especialidade - que o romance reproduz - e avaliadas pelo mais renomado numismata ibérico, o padre Florez, em Madrid?

Quatro séculos passados persistem aqueles que, minimizando a integridade de Damião de Góis, tentam fazer da História um livro fechado. Ingenuidade ou má-fé?"

Joaquim Fernandes

Porto

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