Quer durante o Reyno, quer durante as Repúblicas, este país sempre se demonstrou pela característica de uma política de compadrios, onde o politicamente correcto é que vingava e não o que desejavelmente devia ser feito.
A única excepção, que se calhar confirma a regra geral, que encontramos é na segunda metade do século XV onde tivemos o único governante que até hoje se guiou unicamente por critérios de gestão não contaminados onde o resultado era avaliado e premiado se alcançados os objectivos definidos previamente.
Por vezes os métodos podiam ser um pouco excessivos, mesmo para a época, mas os resultados alcançados mostravam o merecimento.
A seguir um artigo de opinião publicado no Público.
José Miguel Júdice - 20080801
Os portugueses acham que os gestores não devem ser remunerados pelo sucesso, palavra maldita da língua portuguesa
Era Margaret Thatcher primeiro-ministra do Reino Unido. Um dia, um escândalo rebentou. Soube-se que o Governo tinha contratado um sócio do famoso banco de investimento Lazard Brothers para presidir à British Steel. Somando a indemnização ao banco pela saída temporária do seu sócio, o ordenado e os prémios de sucesso, o valor era astronómico. Thatcher teve de responder, na habitual sessão da Câmara dos Comuns, ao fogo da oposição. A resposta foi simples, cortante e esclarecedora: para atingir tais valores, ele teria de transformar a Bristish Steel numa empresa com resultados positivos. Nesse caso, o que lhe seria pago - a tal conta astronómica - correspondia a um dia dos prejuízos anuais da empresa, ou seja, a cerca de 0,27% dos prejuízos anuais existentes! Se tivesse sucesso, por cada libra que ele ganhasse, o erário público ganhava 364 libras. E salvava a empresa da falência. Os britânicos calaram-se e esperaram. E, ao fim de alguns anos, o sócio do famoso banco teve sucesso. Ganhou o Reino Unido e ganhou ele. E devíamos todos ter ganho uma lição.
Em Portugal, estão os jornais cheios com notícias sobre o que ganham os gestores públicos. A inveja entre nós, é sabido, dá-nos lugar no Guinness (e já Camões, et pour cause, terminou simbolicamente Os Lusíadas usando essa palavra que é a que melhor nos define como povo); e a compreensível revolta contra as dificuldades gerais facilmente se transforma numa irritação contra quem ganhe mais do que outros.
A minha tese é que os gestores públicos deviam poder ganhar muito mais do que ganham, se atingissem difíceis objectivos que seriam negociados antes de tomarem posse. A tese dominante em Portugal é que devem ganhar bem, mas não muito, e que não devem ser remunerados pelo sucesso, que sabemos ser a palavra mais maldita da língua portuguesa.
Se o gestor da British Steel viesse para Portugal (as grandes figuras do mundo também têm as suas maluqueiras), teria de aceitar que a sua equipa fosse escolhida com o beneplácito do partido que estivesse na altura no poder, iria ganhar de acordo com uma tabela que é igual para todos, beneficiaria de um bom automóvel e de umas viagens, teria um pequeno prémio que pouco dependeria do que fizesse. Vamos imaginar, por exemplo, que aceitava gerir a CP. Quer mudasse a empresa, quer não mudasse, tudo seria para ele financeiramente mais ou menos irrelevante. Não teria por isso nenhum estímulo real para mudar o que estivesse mal e para melhorar fortemente os resultados. Para ter sucesso, teria de discutir duramente com fornecedores (incluindo os trabalhadores), clientes (incluindo o Estado, que, ao impor certos preços, funciona, na prática, como grande comprador), alterar práticas e atitudes. Seria, claro, estigmatizado pelos media, incomodado pelos partidos, boicotado pelos quadros (que não podem ser substituídos), os seus colegas de administração tudo fariam para lhe tirar o lugar, os ministros demorariam meses a tomar decisões que eram urgentes, acabaria seguramente por desistir ou - o que é pior - por se acomodar.
Lembro-me de um médico que dirigia um importante serviço num dos maiores hospitais portugueses. Estávamos na primeira metade dos anos 90. Com muito esforço e capacidade negocial, conseguiu obter dos fornecedores reduções de cerca de 250.000 contos no custo do que tinha de encomendar para o serviço. Ninguém, evidentemente, lhe agradeceu. Pelo contrário, só deve ter tido problemas com isso. E o resultado foi que... no ano seguinte o orçamento do seu serviço foi reduzido em 250.000 contos! Para aprender. E para perceber que não deveria voltar a ousar o que fizera.
E quem não se lembra do que teve de ouvir o anterior director-geral dos Impostos, apesar ou por causa do seu sucesso, da inviabilidade de lhe pagar à altura do seu valor, da inveja de que foi vitima?
Uma grande parte dos problemas portugueses nasce neste tipo de mentalidade. A generalidade dos opinion makers, dos burocratas que a si mesmo se chamam - e não estão a gozar connosco - "políticos", dos jornalistas travestidos em comentadores nas suas intervenções e nos títulos das suas peças, não tem dúvidas. Se querem ser populares, devem embarcar na luta contra o sucesso, o êxito, a exigência, o rigor, o prémio. Devem comparar o que ganha o contínuo com o que ganha o presidente da administração e rasgar vestes e arrancar cabelos com horror. No fundo, no fundo, a mentalidade dominante em Portugal acha que pouco ou nada distingue o que faz um e o que faz o outro e que, por isso - como se dizia que acontecia na China maoísta -, todos deviam ganhar o mesmo em cada empresa.
Os gestores públicos em Portugal ganham em regra pouco. Mesmo as empresas que funcionam bem, como a CGD, remuneram claramente abaixo dos valores de mercado. Ora essas empresas estão num mercado competitivo e o que ganham os seus dirigentes deve ser comparado com os concorrentes e não com o que ganha cada um dos portugueses ou cada um dos empregados das mencionadas empresas.
Não tenhamos ilusões. Se em Portugal fosse culturalmente possível fazer o que Thatcher fez no caso da British Steel, se o director de serviço do hospital e a sua equipa tivessem - para formação, por exemplo - metade do que pouparam, se o director-geral dos Impostos fosse remunerado por objectivos, Portugal tinha mudado.
Se o Estado tiver coragem, deve avançar nessa direcção. Infelizmente, não o vai fazer. É a vida, como terá dito António Guterres.
Advogado
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