segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Eis o que assistimos no dia a dia

Pela actualidade do texto, até para casos bem recentes, transcreve-se do blogue DE RERUM NATURA o seguinte texto de Desidério Murcho.



Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

Mentira Política

O excelente post da Palmira põe a nu o estado de mentira política em que vivemos, e é este aspecto que vejo nitidamente no caso do aquecimento global e de muitos outros.

Num texto excelente que infelizmente não foi incluído na recente antologia que preparei para a Antígona, Orwell analisa cuidadosamente as razões que tem para pensar que a Terra é redonda. E descobre que não tem assim tantas.

O que está em causa é o problema da divisão social do conhecimento. Ao longo da história, as pessoas, na sua maior parte, nunca souberam praticamente coisa alguma excepto o que é estritamente necessário para a sua vida quotidiana e para alimentar a sua actividade favorita: a mexeriquice. Mas hoje mesmo quem procura conhecer as coisas não pode saber realmente mais do que uma pequeníssima parte; no resto, tem de confiar em especialistas. Isto é maravilhoso, porque exibe a nossa profunda dependência mútua: o conhecimento está socialmente distribuído e eu preciso dos conhecimentos que outros têm, e eles dos meus.

Mas é também politicamente perigoso, pois dá origem a perversões terríveis. Uma dessas perversões é a manipulação da verdade. A publicidade, quase na sua totalidade, certos tipos de marketing, a propaganda e os grupos de pressão mais não fazem do que poluir a cabeça das pessoas com meias verdades, vaguezas, frivolidades e completas mentiras. Neste clima político, tudo é mentira porque tudo é feito em nome de “uma causa”. E isso é assustador. Eu não sei o suficiente sobre clima nem sobre as ciências relevantes para poder avaliar o que se passa no caso do pretenso aquecimento global; tenho de confiar nos especialistas. Mas quando os especialistas estão profundamente politizados, quando pertencem a uma ou a outra “causa”, não posso confiar em qualquer deles.

E o meu caso não é o mais grave, porque tenho uma formação intelectual que me permite distinguir razoavelmente o disparate mistificador do que é plausivelmente verdadeiro. Mas o que dizer da generalidade da população, que não tem uma formação intelectual sofisticada? Que tipo de opinião pode um taxista que tem apenas o 12.º ano sobre o aquecimento global? Leia-se este artigo, por exemplo; eu compreendo a sua maior parte e sou capaz de ver se defende razoavelmente as ideias que defende ou se faz mera manipulação de palavras e dados a fingir-se ciência; mas poderá a maior parte da população fazer este tipo de juízo? Infelizmente, não. E isto é politicamente muito grave, pois é o que permite o género de manipulação que ocorre com a propaganda política, comercial e ideológica.

Precisamos de inverter a irracionalidade da sociedade contemporânea, que é feita de mentiras inventadas para vender produtos: vender o Dalai Lama, vender o conservadorismo religioso, vender banha da cobra pretensamente medicinal, vender o pânico ecológico para dar poder político a algumas pessoas. Mas não sei como é possível inverter este caminho político que começámos a trilhar e que foi previsto por Orwell. Tudo o que posso dizer é que é importante valorizar a objectividade, o estudo cuidadoso das coisas, a honestidade intelectual e humana, a procura imparcial da verdade das coisas, a atenção cuidadosa à realidade — tudo isto por oposição à ideia de que tudo é subjectivo ou intersubjectivo, que a verdade é relativa aos nossos interesses e desejos, que a realidade e a verdade se devem vergar aos nossos interesses políticos, económicos, religiosos, pessoais ou ideológicos.

Não sei como se pode cultivar o amor à verdade e ao estudo imparcial das coisas. Mas sei que ficaremos todos muito pior, e talvez catastroficamente pior, se não o fizermos.

Posted by Desidério Murcho at 15:11

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