sábado, 27 de setembro de 2008

O Ocidente e o Império do Meio em 2008 (3)

Pelo seu interesse transcrevemos o terceiro e último artigo desta série dado à estampa no Público de 10 de Setembro de 2008.




O poder militar chinês: a ameaça futura

Pedro Jordão - 20080910

A China planeia a muito longo prazo. É legítimo que nos interroguemos sobre os reais objectivos do seu esforço militarDiversos países, designadamente os Estados Unidos, sentem um paranóico temor perante o crescente poderio militar da China. Embora em matéria de segurança todos os cenários devam ser previstos, são pouco plausíveis as visões mais pessimistas no que se refere à China.Logicamente, seria imprudente desvalorizar militarmente este país. A China é o país mais populoso do mundo, possui as maiores forças armadas, com 2,3 milhões de efectivos, é uma potência nuclear e desenvolve um consistente processo de modernização das suas capacidades de combate, inclusive em domínios de sofisticada tecnologia da próxima geração.

É iniludível a convergência entre a ascensão desta força militar e a transformação da China numa futura superpotência económica, de que decorrerá um grande peso político global. A China pensa e planeia a muito longo prazo. É legítimo que nos interroguemos sobre os reais objectivos de todo este esforço militar.

Os norte-americanos assustam-se pelo facto de o orçamento militar chinês ter crescido 17,8 por cento em 2007 e 17,6 por cento em 2008. Mas devemos manter a noção das proporções. Em valores absolutos, o orçamento de defesa dos Estados Unidos é nove vezes superior ao da China e o poder militar norte-americano tem já um avanço gigantesco e crescente relativamente a qualquer outro país ou à Europa. Os EUA não só possuem uma enorme superioridade como também desenvolvem já novas gerações de armas e tecnologias que lhes assegurarão uma supremacia militar durante muitas décadas. O orçamento de investigação e desenvolvimento militar dos EUA é superior a todo o orçamento da defesa da Alemanha. Nem a Europa nem a China terão uma capacidade comparável num longuíssimo horizonte temporal.

A China será a grande potência militar da Ásia e terá capacidade para intervir noutras regiões do mundo, inclusive, se necessário, para proteger as suas fontes e rotas de abastecimento de petróleo, alimentos e matérias-primas essenciais. A forte aposta na capacidade naval tem esses propósitos mas também o de ser um contrapoder à influência naval norte-americana na região. A China possui mísseis balísticos intercontinentais, designadamente o DF-31, que podem atingir território europeu e norte-americano.

A modernização chinesa privilegia os submarinos avançados, os aviões não-tripulados, os mísseis ar-terra de alta precisão, as comunicações militares de longa distância, os mísseis anti-satélite e a capacidade de rápido ataque da Força Aérea a objectivos longínquos. Mas, inteligentemente, a China aposta em novas tecnologias não-convencionais que poderão revelar-se cruciais em futuros conflitos, sendo esse o caso da capacidade de guerra electrónica e informática e de tecnologias como o impulso electromagnético (que poderia ter um efeito determinante na fase inicial de um conflito com Taiwan).

As capacidades chinesas de ciberguerra são um exemplo da perspicácia com que este país antecipa metodologias vitais em conflitos do futuro, planeando atingir a superioridade de guerra electrónica em 2050. A China desenvolveu modelos de ataque informático a frotas de porta-aviões dos Estados Unidos. Ciberataques ensaiados a partir da China têm sido quase constantes, embora se negue o envolvimento oficial. Desde 2005 foram registadas no Pentágono 79.000 tentativas de intromissão informática, das quais 1300 com algum grau de sucesso. Um ataque conseguiu fechar parte do sistema de computadores do gabinete do próprio secretário da Defesa.Toda esta preparação militar de vanguarda pode ser perigosa ou benigna. Ter armas não é necessariamente um perigo. Um indivíduo pacífico com um míssil é menos perigoso que um psicopata com um punhal. O que verdadeiramente define a perigosidade de uma estrutura militar é a mente de quem a controla. É imperioso avaliar o que motiva os chineses.

A China é uma civilização com 4 mil anos que geralmente deteve uma superioridade perante o resto do mundo nos planos científico, tecnológico e cultural. Habituou-se a olhar os outros povos como bárbaros. Em lugar de tentar controlar o mundo "bárbaro" a China optou por isolar-se dele. A famosa muralha traduz essa postura. Mas nos últimos 170 anos a China sofreu duras derrotas, ocupações e humilhações. Na verdade, o mundo não está habituado a agressões da China, mas ela sofreu agressões estrangeiras.

A China está determinada a exorcizar aquelas humilhações, a recuperar o estatuto de grande potência e a inspirar respeito e dignidade. As mentalidades pacificaram-se, não existe uma postura internacional agressiva, os contenciosos com os vizinhos estão a ser resolvidos e mesmo com Taiwan o desanuviamento progrediu imenso.

O poder militar chinês será muito mais provavelmente defensivo do que aventureiro. A China não deseja tutelar o mundo. Simplesmente não aceita que o mundo a tutele.

Presidente do CINT (ped.jordao@gmail.com)

Último de uma série de três artigos

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