segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O Ocidente e o Império do Meio em 2008 (2)

Na continuação dos artigos de opinião no Público acerca deste tema, foi publicado em 8 de Setembro de 2008, o segundo artigo que se transcreve:




Como a China mudará a economia global

Pedro Jordão - 20080908

Os 29 milhões de empresas privadas representam mais de dois terços da economia chinesa

Aascensão da economia chinesa impressiona pelo enorme crescimento ao longo de muitos anos consecutivos, mas também pela transformação qualitativa, que é uma das mais vibrantes experiências económicas da história. Este processo ocorre num país com um quinto da população mundial, o que torna inevitáveis as ondas de choque na economia global.

Esta dinâmica da China insere-se na tendência mais geral da emergência económica dos países em desenvolvimento. Esse vasto conjunto de economias emergentes, apesar da conjuntura de crise internacional, deverá, em 2008, crescer economicamente a um ritmo médio quatro vezes superior ao da zona euro. Neste ano a economia da China deverá crescer 9,8 por cento (quase seis vezes o ritmo da zona euro) e a da Índia 7,7 por cento.

O arranque económico da China, com as reformas iniciadas em 1978, surgiu num país de economia agrícola com uma indústria atrasada. A falta de gestão moderna, mão-de-obra especializada, recursos financeiros, tecnologia e experiência internacional impôs um modelo de crescimento assente em indústrias de baixo valor acrescentado e em mão-de-obra pouco qualificada e intensiva.Mas os chineses aprendem depressa. Nas décadas seguintes a transformação da economia foi inimaginável. As empresas chinesas elevaram enormemente o seu nível tecnológico e muitas já lideram sofisticados segmentos de mercado internacionais. No início, a economia era completamente controlada pelas empresas estatais, mas agora os 29 milhões de empresas privadas representam mais de dois terços da economia. Mesmo as empresas estatais, no passado disfuncionais, tornaram-se agora rentáveis no seu conjunto, com lucros que nos últimos três anos cresceram 223 por cento.

Os lucros das empresas conferiram-lhes capacidade financeira para adquirir a mais avançada tecnologia do mundo. As receitas fiscais numa economia expansiva permitiram financiar fortemente a educação, a ciência, a defesa, infra-estruturas e programas sociais. A economia e o país mudaram extraordinariamente.

A China possui agora algumas das maiores empresas e alguns dos maiores bancos do mundo. A Lenovo é o segundo maior produtor mundial de PC e adquiriu toda a lendária divisão de computadores pessoais da IBM. A China é o país do mundo com o maior número de utilizadores da Internet e o número de assinantes de telemóveis é muito superior a toda a população da Europa. Em 2007 o número de registos de patentes chinesas aumentou 20 por cento, suplantando os Estados Unidos e o Japão. Em 2003 a China passou a exportar mais tecnologias da informação do que todos os países da União Europeia juntos. Em 2004 superou os Estados Unidos e tornou-se no maior exportador mundial dessas tecnologias.

Na próxima década os chineses emergirão como uma potência nos serviços de alta gama, captando uma quota crescente do mercado mundial de offshoring de serviços.

Este contexto induziu a maior prosperidade dos cidadãos em geral e o consumo interno cresce explosivamente. A classe média de 300 milhões de habitantes é ainda minoritária mas é numericamente idêntica a toda a população dos Estados Unidos. Este mercado de consumo passou de irrelevante para o nível de um mercado gigantesco, no qual quase todas as empresas globais competem para se implantar. Em 2007 venderam-se 8,3 milhões de veículos e 40 milhões de turistas chineses viajaram no estrangeiro. Nos produtos de luxo a China é já importante, sendo o maior mercado de crescimento para grandes marcas globais enquanto absorve 15 por cento da produção da Rolls Royce.

As assimetrias de desenvolvimento são acentuadas, nomeadamente entre zonas rurais e urbanas. Todos beneficiam com as reformas, mas uns mais rapidamente que outros. A China retirou da pobreza centenas de milhões de cidadãos, o que configura o maior sucesso de erradicação de pobreza na história mundial.

As empresas chinesas passaram a ser fortes investidores no resto do mundo, tendência que acelerará imenso nos próximos anos, inclusive com aquisições aparatosas na Europa já em preparação. Nos últimos cinco anos o número de aquisições de empresas no estrangeiro aumentou 10 vezes.

Embora o PIB per capita seja ainda baixo, a economia da China é (em ppp) já a segunda maior do mundo e previsivelmente ultrapassará a norte-americana nas próximas décadas.

Mas esta ascensão da China é apenas a ponta de um iceberg que é a imparável competição e o consumo das economias emergentes. O que nas próximas décadas alterará dramaticamente o modus operandi e as linhas de força da economia mundial não é apenas a China mas esse conjunto de países. O mundo da economia, da política e do poder, como o conhecemos no séc. XX, está a desaparecer parcialmente.

Torna-se indispensável a inteligência estratégica de nos reinventarmos em tempo útil.

Presidente do CINT (ped.jordao@gmail.com).

Segundo de uma série de três artigos

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