terça-feira, 2 de setembro de 2008

Cultura Portuguesa

Por vários motivos os textos de Eduardo Lourenço merecem uma leitura sempre atenta.

Tal não podia falhar no texto publicado no PÚBLICO no passado dia 31 de Agosto de 2008, que a seguir se transcreve:



Adeus a Luciana

Eduardo Lourenço - 20080831

É grato devolver à grande lusitanista a dádiva da sua companhia e da sua erudição sem falhaHá professores que são ao mesmo tempo autênticos actores. Luciana Stegagno Picchio, musa cultural dos dois mundos que dividem a nossa língua, pertencia a essa raça. As suas intervenções nos múltiplos colóquios dos dois lados do Atlântico eram sempre um espectáculo de saber, de graça e de elegância. Partilhava esse talento com a amiga Cleonice Berardinelli, sapiente como ela, menos exuberante. À professora Luciana deve o Brasil uma já clássica História da Literatura, em tudo digna da grande filóloga e crítica literária que era. Quanto a Portugal, deve-lhe uma História do nosso teatro a todos os títulos comparável aos seus estudos dedicados ao Brasil.

Para muitos de nós, Luciana impôs-se-nos como uma das primeiras estudiosas estrangeiras de Pessoa, num momento em que o fenómeno heteronímico era ainda objecto de polémica, discussão e fascínio. Distanciada das nossas querelas domésticas, a grande filóloga italiana pôde abordar a questão com mais frieza e humor. É um dos estudos mais pertinentes que o Pessoa de há meio século mereceu. Mais tarde, um pequeno estudo sobre o mesmo Pessoa, de parceria com Roman Jakobson, deu-lhe uma notoriedade internacional. Antonio Tabucchi, seu estudante, compartilhou com ela a paixão por Pessoa, a quem dedicou, em italiano, uma antologia até hoje não superada. E com essa paixão uma intimidade cultural com as coisas portuguesas que marcará para sempre a sua original obra de ficcionista.

Grande conhecedora da literatura italiana, naturalmente, algumas vezes Luciana lamentou não ter dedicado aos seus autores famosos, de Dante a Leopardi ou de Pasolini a Primo Levi a paciente atenção que consagrou aos Gil Vicente, aos Camões ou aos Murilo Mendes e à língua portuguesa que ilustraram. O interesse pelas culturas alheias é sempre uma forma de exílio. Penso que o seu foi exaltante. O Brasil, mais ainda do que Portugal, foi, em sentido literal, um novo mundo para ela. Um novo mundo que a adoptou como criadora sua, e de algum modo a integrou na sua fabulosa cultura de matriz europeia e emigrante. Isso a compensou e consolou de não ter dado à pátria de Dante, que seu pai lhe ensinara a recitar na adolescência, aquele fervor que durante anos, num magistério frutuoso, iria reservar para uma outra língua. A nossa, como a sua, filha do Lácio.

Em tempos era corrente queixarmo-nos da imaginária falta de atenção dos outros pela realidade e excelência das nossas criações. O que devia espantar-nos é a extraordinária atenção que a nossa cultura mereceu a tanto estrangeiro que tantas vezes nos descobriu, estudou e nos revelou a nós mesmos. Luciana Stegagno Picchio pertence a esses peregrinos que, com saber e alegria, se perderam nos labirintos culturais de um país europeu que há um milénio partilha com culturas tão ricas e brilhantes como a da pátria de Luciana os mesmos sonhos. Na hora de os abandonar a um outro destino, é grato devolver a Luciana a companhia, a presença da sua erudição sem falha, nunca austera, secretamente divertida, com que ao longo dos anos percorreu e iluminou alguns dos mais obscuros rincões da nossa Cultura.

Vilamoura, 29 de Agosto de 2008

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