Um notável discurso de António Barreto, certeiro no seu retrato do país, sobretudo penetrante na mensagem que deixou, como exigência a todos, sobretudos às nossas elites - o da importância dos bons exemplos - abriu caminho a um Presidente da República que, antes de pedir esperança, exigiu a todos um esforço para colocar Portugal no "rumo certo"Há 22 anos, na Guarda, no primeiro 10 de Junho celebrado por um Presidente da República eleito democraticamente, Jorge de Sena fez um dos discursos mais marcantes da história destas cerimónias. Fê-lo para, como disse, "dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo", um Camões que poderia viver "as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência".
Ontem, num discurso que por certo também ficará na lista dos mais notáveis realizados numa cerimónia do 10 de Junho, António Barreto recordou o Camões que Jorge de Sena nos reapresentou em "palavras que ecoam" e acrescentou que "os nossos maiores heróis, com Camões à cabeça, ilustraram-se pela liberdade e pelo espírito insubmisso. Pela aventura e pelo esforço empreendedor. Pela sua humanidade e, algumas vezes, pela tolerância". Só que, "infelizmente, foram tantas vezes utilizados com o exacto sentido oposto: obedientes ou símbolos de uma superioridade obscena".
Citando depois Orlando Ribeiro, que viu na capacidade de resistir a base da "persistência da nacionalidade", Barreto partiu para um retrato cru mas certeiro do Portugal que somos - um Portugal que Jorge de Sena, falecido em 1978, nunca chegou a ver, e que se muito evoluiu nestes últimos 30 anos também muito desiludiu. "Todo o mundo é composto de mudança", escreveu Camões, e por isso as muitas transformações por que Portugal passou não devem impedir--nos de ver "o que ainda precisa de mudança", nas palavras de Barreto. "O que não foi possível fazer progredir. E a mudança que correu mal."
Mas mais do que repetir os exemplos citados por António Barreto (que foi capaz, por exemplo, de criticar o estado da Justiça falando a poucos metros de um presidente do Supremo Tribunal de Justiça visivelmente incomodado), o que é mais importante reter da sua mensagem é que devemos usar os nossos heróis como exemplos, "porque o exemplo tem efeitos mais duráveis do que qualquer ensino voluntarista".
Não precisamos de lições de moral, precisamos de bons exemplos. Exemplos de eficácia, pontualidade, civilidade nos costumes, respeito pelos outros e pela liberdade. Ganha a justiça se o mérito for recompensado e o favoritismo punido, dando o exemplo os maiores e os melhores, isto é, os nossos dirigentes, os nossos afortunados, os que têm responsabilidades, os que têm poder. Mais: "Não vale a pena dar 'sinais de esperança' ou 'mensagens de confiança'. Quem assim age tem apenas a fórmula e a retórica. Dê-se o exemplo de um poder firme, mas flexível, e a democracia melhorará. Dê-se o exemplo de honestidade e verdade, e a corrupção diminuirá. Dê-se o exemplo de tratamento humano e justo e a crispação reduzir-se-á".
Enfie o barrete quem sentir que ele lhe serve, mas aquelas palavras mereciam ser afixadas por todo o lado, pois em todo o lado se esquece a importância dos bons exemplos, dos comportamentos rectos, o lugar central que tem numa sociedade aberta e numa democracia a noção de que a confiança que só se conquista e se torna mobilizadora se os melhores exemplos vierem de cima.
O Presidente da República foi igualmente assertivo na sua intervenção, por natureza mais institucional, e por isso lembrou o que já dissera noutras ocasiões: "A verdade gera confiança, a ilusão é fonte de descrença". Mas acrescentou: "Tanto no Estado como na sociedade civil é preciso adoptar uma cultura de transparência e de prestação de contas". E que falta isso nos faz se o país não se limitar a "tentar sobreviver".
Só que isso exige "ter uma visão estratégica de médio e longo prazo, uma visão alheia a calendários imediatos, que poderiam comprometer o futuro e tornar inúteis os sacrifícios que a hora exige". Até porque "a credibilidade dos agentes políticos é tanto mais necessária quanto a situação económica e financeira actual representa um desafio, sem precedentes nas últimas décadas, à qualidade das instituições democráticas, à competência e visão de futuro dos decisores, e ao empenhamento responsável e solidário de cada um dos cidadãos". Até porque necessitamos de políticos, de dirigentes, de poderosos, capazes de saber "colocar o país no rumo certo, introduzir as mudanças necessárias, reajustar os comportamentos e expectativas individuais, apostar no que é, de facto, essencial para o aumento da nossa capacidade competitiva".
Destas tarefas ninguém, nem o mais humilde cidadão, pode alhear-se, sob pena de não encontrarmos a resposta correcta às perguntas formuladas num poema de Jorge de Sena que, em 2006, Cavaco Silva escolheu para encerrar o discurso do seu primeiro Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades:
"Que Portugal se espera em Portugal?/Que gente há-de ainda erguer-se desta gente?"
Só todos nós podemos responder.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Os efeitos duráveis dos bons exemplos
Transcreve-se, com a devida vénia, o artigo de opinião de José Manuel Fernandes, dado à estampa no Público de 11 de Junho:
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