Trata-se de um retrato por quem estando de fora nos vê, sem perder tempo olhando para o espelho e questionando a célebre frase: "Espelho meu...."
A defesa do orgulho portuguêsCriticar, sem passar por antipatriota, e elogiar, sem passar por bajulador, não é fácil à vez e, ainda menos, em simultâneo.
Principalmente se o tema escolhido for a história económica portuguesa no século XX. Talvez a distância (vive no Canadá) tenha o mérito de fazer temperar emoções e razões, mas o facto é que Álvaro Santos Pereira o conseguiu de forma brilhante.
Sendo um académico jovem, o autor estudou e reflectiu sobre um período que ainda é tratado com pinças por muitos veteranos da intelectualidade portuguesa e escolheu uma linguagem viva, com humor e despojada de "economês" para atacar um tema debatido à exaustão.
A ideia base de que parte é que o pessimismo luso não é tanto uma característica inata, mas é sobretudo uma reacção a conjunturas históricas e opções políticas que, muitas vezes, nos fazem desvalorizar a capacidade de fazer coisas extraordinárias e participar do progresso.
A mais longa ditadura europeia do século XX, com o seu isolamento económico e cultural, não é factor de somenos importância. Desde logo, o mito da crise. Portugal tem vivido em estagnação, num crescer "devagar e devagarinho" na ordem do 1% desde 2000; mas antes da hecatombe do final de 2008 já a palavra corria há muito de boca em boca.
"Se a nossa economia crescesse ao mesmo ritmo do pessimismo nacional, seríamos por certo a economia mais dinâmica da União Europeia e estaríamos a viver um milagre económico de dimensões irlandesas", escreve o autor nas primeiras páginas, criticando a falta de confiança, mais perniciosa que a falta de meios ou de criatividade.
Num primeiro momento, Santos Pereira analisa as causas dessa estagnação (burocracia, sistema judicial inoperante, sistema educativo desfasado), com grande enfoque no regime salazarista e no impacto da descolonização. Depois, descreve exemplos de "campeões nacionais" e as razões do seu sucesso. Finalmente, a receita para cortar de vez com o pessimismo vem na segunda metade do livro: lutar contra as regras fundamentalistas de Bruxelas (sobretudo no que ao défice diz respeito), deixar para mais tarde obras faraónicas e de retorno duvidoso como o TGV para aplicar as verbas no turismo ou no parque escolar, e apostar numa estratégia AEIOU. O acrónimo para esta "receita pouco mágica" traduz-se em Arriscar mais, Educar melhor, Inovar mais, Organizar mais e melhor, Utilizar melhor as nossas vantagens comparativas.Em suma, a solução é transformarmo-nos (como o próprio) em optimistas realistas e dar atenção a exemplos como o de Belmiro de Azevedo , construtor do império Sonae.
O empresário, que assina o prefácio, partilha da visão do autor: "A haver um projecto nacional para contrariar o medo colectivo, este deverá ser novo e diversificado, extremamente inovador e, sobretudo, deverá perseguir objectivos adequados à nossa ambição".
Uma nota para dizer que se sente falta de mais reflexão sobre a década que mediou entre o pós-25 de Abril e a adesão à UE - um período vital na construção da "personalidade" lusa, mas talvez fique para outra obra. Para já, este livro dá-nos muito e bom material para pensar sobre o país e o mundo em que vivemos, quase sempre com um sorriso a fugir-nos da boca.
O medo do insucesso nacional
Autor Álvaro Santos Pereira
Editora A esfera dos livros
Páginas 326
Preço 17 euros
Isabel Marques da Silva/José Vegar
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