No entanto, é necessário continuar a alertar as mentes sonâmbulas em que esta sociedade se tornou e por isso transcreve-se, com a devida vénia, uma carta ao director publicada pelo jornal "Público" no dia 23 de Julho.
Serão estes os representantes que queremos?
Passei toda a manhã de dia 18 na Assembleia da República, para assistir à discussão da petição sobre os direitos humanos no Tibete, de que fui o primeiro subscritor e que obteve mais de 11.000 assinaturas. Mas não é disso que venho falar. Venho falar da confirmação directa da imagem que já tinha do estado da nação, no que respeita aos seus representantes parlamentares.
Era o último dia de trabalhos antes das férias parlamentares, com uma agenda cheia de debates e votações sobre projectos de lei (relativos a transportes, saúde, etc.) e várias petições.
Às 10h, quando abriram os trabalhos, as bancadas teriam no máximo um terço dos deputados. À medida que os vários oradores tomavam a palavra, aquilo a que se assistia era o seguinte: dos escassos presentes, ninguém parecia estar a ouvir nada; uns levavam o portátil e mandavam mails, outros falavam ao telefone, uns conversavam em pequenos grupos, alguns de costas para o orador, outros liam tranquilamente os jornais. Apenas interrompiam estas actividades para aplaudirem maquinalmente o orador do seu partido.
Foi só por volta do meio-dia que o hemiciclo se começou a compor e só então chegaram as figuras mais relevantes e as caras mais conhecidas dos vários grupos parlamentares, com ar descontraído, palmadinhas nas costas e sorrisos cúmplices para os seus correlegionários.
Foi por essa altura que a petição relativa ao Tibete começou a ser discutida.
Quando a deputada do PS Leonor Coutinho começou a apresentar o relatório sobre a situação no Tibete, o ruído das conversas era tal que ela teve de parar por duas vezes e o próprio presidente da Assembleia de pedir silêncio aos "senhores deputados". Sem qualquer efeito. O ambiente era igual ou pior ao de uma turma das mais indisciplinadas do ensino primário ou secundário.
Seria apenas naquele dia, por ser o último antes das férias? Não. Pessoas que lá vão regularmente esclareceram que é sempre assim.
Após a apresentação das várias matérias em debate, neste total alheamento e desrespeito mútuo, ia seguir-se a votação. Levantei-me e vim-me embora.
Estava elucidado e só pensava que, após dois mandatos de quatro anos nesta vida, saem de lá com belas reformas para sempre.
Estou esclarecido sobre o estado da nação, espelhado no seu Parlamento. Só pergunto, a mim e a vocês, se são estes os nossos representantes, se são estes que queremos como representantes. É isto democracia, partidocracia ou mediocrecracia? E o que fazemos?
Paulo Borges, Lisboa
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