segunda-feira, 9 de junho de 2008

A Energia Nuclear e a Energia para Portugal

Concordando com o exposto no artigo de Opinião do Público de 9 de Junho de 2008, que com a devida vénia abaixo transcrevemos, espera-se que se comece a debater a questão antes que ela tenha que "entrar pela porta a dentro".

Como de costume, os portugueses adoram ir adiando ....

Nuclear: o incómodo debate que se impõe
09.06.2008, Ivone Rocha
Uma solução que permite produzir electricidade sem recurso aos combustíveis fósseis não pode ser ignorada
Com o preço do petróleo a bater recordes e a economia em desaceleração, e sendo a política energética, nas suas diversas vertentes, um factor de crescimento e de competitividade, a definição de uma estratégia cada vez mais clara para este sector impõe-se. Com ela há que esclarecer: nuclear, sim ou não?Segurança e auto-suficiência no abastecimento, aumento de eficiência energética ao nível do consumo e adequação ambiental do processo energética são as linhas mestras da política energética europeia e, consequentemente, da política energética portuguesa.Se ao nível da eficiência energética, com mais ou menos atrasos, Portugal vai avançando com a qualificação e a certificação dos usos, promovendo as boas práticas e desincentivando as más \u2013 através da tributação \u2013 ao nível da segurança e da auto-suficiência no abastecimento, a política energética portuguesa, ao não definir o novo mix de produção para o futuro, revela-se destituída de uma estratégia.Falar de estratégia energética é falar de uma importante alavanca da economia, quer pela capacidade de criar novos investimentos, quer pelo seu efeito potencial na redução do preço dos factores.Portugal é um país dependente de recursos energéticos importados, dependência esta expressa, na sua quase totalidade, em combustíveis fósseis, ao mesmo tempo que possui das maiores taxas de intensidade energética (rácio entre o consumo de energia e o produto interno bruto) da União Europeia.A tudo isto há que acrescentar as preocupações ambientais, principalmente as metas de Quioto, já em vigor, que obrigam a uma redução no uso dos combustíveis fósseis.A aposta nas energias renováveis é desejável. Com ela reduzem-se as emissões, aumenta-se a autonomia energética e criam-se oportunidades de investimento. O compromisso de Portugal em produzir, em 2010, 39 por cento da sua electricidade final com origem em fontes renováveis de energia é, seguramente, um passo importante. Porém, será este compromisso suficiente para expandir o nosso sistema electroprodutor?Note-se que, ao falarmos de fontes de energia renováveis, estamos a falar de fontes não-constantes de energia, cuja produção é, muitas vezes, impossível de armazenar.A política energética portuguesa defende o óbvio e o pacífico, ou seja, a necessidade de abandonar o mix tradicional na produção de energia. O que não explica é como vai ser constituído o novo mix que se quer de baixo custo, ambientalmente neutro e auto-suficiente.Constituir este novo mix sem ponderar o nuclear pode revelar-se desvantajoso e com perda de competitividade para Portugal.Na verdade, um pouco por todo o lado o nuclear surge/ressuscita e a opinião pública está confusa.A frase de James Lovelock de que \u201Csó a energia nuclear pode deter o aquecimento global\u201D espalha-se. Nos EUA desenvolve-se a quarta geração de reactores. Na Europa existem cerca de 200 centrais, uma das quais bem perto de nós, na vizinha Espanha, a Central de Almaraz, junto ao rio Tejo. Uma solução que permite uma produção de electricidade sem recurso aos combustíveis fósseis, sem produção de CO2, capaz de garantir auto-suficiência, equilibrar a balança de pagamentos, aumentar a nossa competitividade não pode ser ignorada.Percebe-se o incómodo da discussão. A história tem maus exemplos quanto a centrais nucleares. Mas o perigo, a existir, está mesmo ao lado, junto ao rio Tejo: a central nuclear de Almaraz. Tomar decisões e fazer opções sem se considerar todas as alternativas é um erro. Fazê-lo sem debate torna a opção ilegítima.Em Espanha, esta matéria foi tema da campanha eleitoral, numa altura em que se debatiam os programas de governo. Em Portugal, excepção feita para a Presidência da República, que tentou lançar o debate, e a algumas vozes isoladas, vive-se o silêncio!Sendo a política energética nacional estratégica para o país, a sua definição carece de uma discussão pública amplamente participada.A discussão da opção nuclear surgirá mais dia, menos dia\u2026 Advogada. Coordenadora do Departamento de Energia e Ambiente da JPAB \u2013 José Pedro Aguiar-Branco & Associados

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