domingo, 6 de outubro de 2019

Os Aeroportos de Portugal na época do primeiro quartel do século XXI

O texto que se segue foi retirado, com a devida vénia, da revista Exame Informática Nº292 (Outubro de 2019).

MONTIJO JÁ SUPEROU AEROPORTO DE BEJA

O Governo anunciou que vai investir num sistema de hologramas e realidade virtual que vai permitir que todos os habitantes de Beja tenham a ilusão de que há aviões comerciais que aterram no aeroporto local.
O mesmo sistema vai ser instalado no futuro aeroporto do Montijo, mas com o objectivo de levar os turistas a acreditarem que estão em Beja e não estranharem o custo das viagens de táxi que lhes vão cobrar nas viagens para Lisboa.


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

As Procissões em Olhão

Para uma divulgação esclarecida do património cultural local transcreve-se o artigo com o título supra do jornal "O Olhanense" no seu número 1078 do Ano 51, publicado com a data de 1 de Novembro de 2013.



As Procissões em Olhão

 

Olhão sempre se caracterizou por ser uma terra de gente do mar, quer em navegações de cabotagem e comércio, quer em pesca de diversas artes e zonas de mar, umas próximas, outras bem mais longínquas.

A gente do mar, uns mais outros menos, sempre são devotos, fruto das suas andanças e passagens nem sempre fáceis. Daí que as manifestações religiosas fossem sempre bastante concorridas.

 Não é por acaso que ainda nos dias de hoje a capela de devoção ao Senhor dos Aflitos continua a ter mostras diárias dos sentimentos de muitos dos seus habitantes.

Outro tipo de manifestação religiosa, – a procissão -  que também tinha muitos devotos, com gentes do mar a disputar a honra de poderem levar certos andores, pendões e estandartes.

Lembro-me perfeitamente delas, do seu longo percurso e do sermão final antes de recolher de novo à Igreja Matriz.

Estamos a falar dos tempos de sacerdotes que à frente da paróquia marcaram toda uma época como foi o caso do padre Delgado, do cónego Falé, entre outros.

Com o evoluir dos tempos as procissões começaram a deixar de ter participantes em número suficiente, com os párocos a afirmarem que já não havia gente para os andores e a procissão não se fazia ou então teria um curto percurso pela Avenida da República.

Por vezes, em muitos paroquianos, ficava a dúvida se tal se devia apenas às modificações de usos e interesses que a sociedade vai sempre sofrendo com o desenrolar dos tempos ou se seria consequência de ressentimentos a algumas atitudes que no dia a dia por vezes alguns priores assumiam.

Felizmente com a vinda do actual pároco, essa tendência tem vindo a ser invertida, com mais paroquianos a colaborar, pelo que já tivemos ultimamente manifestações desse cariz com trajecto digno, voltando a apresentar-se o cortejo perante a frente da ria.

O trajecto agora considerado não foi o tradicional de muitas décadas o que deixou algumas dúvidas nas fontes conselheiras do padre Manuel.

Sempre foi intenção que o cortejo processional passasse por algumas ruas dos dois bairros mais tradicionais de Olhão, o bairro do Levante e o bairro da Barreta. Nesta última versão apenas o bairro da Barreta foi considerado no percurso tendo sido esquecido o bairro do Levante.

E para que a memória perdure a seguir se descreve o trajecto completo das procissões olhanenses.

Iniciava-se a formação do cortejo na frente da Igreja Matriz, na Praça da Restauração, seguia pela Rua Capitão João Carlos de Mendonça, passando-se ao lado do Compromisso Marítimo e Igreja da Soledade.

Depois de passar frente à farmácia Pacheco, que até há pouco ali teve as suas instalações, inflectia para a direita, entrando na Rua Dr. Miguel Bombarda.

Ao entrar nesta rua a procissão percorre parte do bairro da Barreta, sendo este um dos mais antigos bairros de Olhão.

No final da Rua Dr. Miguel Bombarda a procissão virava à esquerda seguindo pela Rua do Dr. Pádua em direcção à Rua de João de Deus e através da Travessa dos Mercadores desembocava na Rua Teófilo Braga. Continuando por esta até ao Largo Patrão Joaquim Lopes a fim de alcançar a frente da Ria.

Do Largo Patrão Joaquim Lopes, atravessava a Avenida 5 de Outubro, passava entre os mercados chegava a procissão em frente à Ria. No Bate-Estacas os andores eram colocados lado a lado e de frente para a Ria.

Seguia-se a cerimónia da bênção do mar e dos barcos, os quais estavam todos engalanados frente aos mercados e marcavam o seu regozijo após a bênção através dos seus apitos e buzinas.

No prosseguimento do percurso, contornava-se pelo lado sul o mercado da verdura regressando à Avenida 5 de Outubro em direcção à Rua Dr. Francisco Fernandes Lopes, para entrar no bairro do Levante.
 
A Rua Dr. Francisco Fernandes Lopes desemboca, na sua parte norte, na confluência das Ruas de S. José e de João Francisco. Uma vez aqui chegada a procissão tomava pela esquerda entrando na Rua de S. José e voltava depois à direita na Travessa de S. José.

Após percorrer esta travessa a procissão virava à esquerda para agora seguir pela Rua de S. Pedro em direcção a Rua Vasco da Gama, virando então para a direita e uma vez percorrida esta rua, desembocava na Avenida da República, junto ao quiosque ali existente.

De notar que à época quer a Rua de S. Pedro (a parte percorrida pela procissão), quer a Rua Vasco da Gama, eram vias com trânsito e não pedonais como hoje o são.

Ao desembocar na Avenida da República terminava a passagem do cortejo processional pelo bairro do Levante.

Na Avenida da República, seguia-se até ao Jardim João Serra (sentido do trânsito) regressando-se de novo ao início da Avenida junto ao Senhor dos Aflitos.

Nesse local era efectuado o sermão final, recolhendo-se posteriormente à Igreja Matriz através da Rua Capitão João Carlos de Mendonça e Praça da Restauração.

Sempre que as condições climatéricas intervinham em desfavor do cortejo o percurso pela Avenida da República era reduzido e o sermão final abreviado.

Agora que é chegado o final destas manifestações para o presente ano de 2013, e até começar a época do próximo ano, existe tempo para corrigir as actuais manifestações religiosas trazendo-as para a boa tradição que sempre foi o orgulho do povo olhanense.

Façamos votos para que com esta tentativa de regresso a algo que era uma imagem de marca de Olhão, sendo falados os cortejos processionais em comparação com outros de localidades próximas, não só se reavive as intenções religiosas que estes actos envolvem como aumente o interesse por visitar esta linda cidade e conhecer as suas gentes e tradições.

 PM



 

 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Portugal no Século XXI

Na situação actual, vigente no Reyno de Portugal do século XXI, não posso deixar de reproduzir o que em uma parede de Toledo um azulejo informa o passeante.

A tradução obedece com fidelidade ao que o castelhano nos mostra!

A Sociedade é assim:
 
O Pobre Trabalha
 
O Rico Explora-o
 
O Soldado Defende os dois
 
O Contribuinte Paga pelos três
 
O Vagabundo Descansa pelos quatro
 
O Bêbado Bebe pelos cinco
 
O Banqueiro "Esfola" os seis
 
O Advogado Engana os sete
 
O Médico Mata os oito
 
O Coveiro Enterra os nove
 
O Político Vive dos dez

domingo, 27 de março de 2011

Museu Subaquático de Portimão I

Transcreve-se a seguinte notícia dada à estampa pelo jornal "BARLAVENTO" e relacionada com o tema.

Quanto à opinião da bióloga não se efectuam comentários!

LPN tem reservas em relação ao projeto do museu subaquático de Portimão



Apesar de considerar que há espaço para todas as atividades económicas, Alexandra Cunha, bióloga marinha e presidente da Liga para a Proteção da Natureza (LPN), afirmou que o projeto «não tem interesse nenhum a nível da conservação da natureza» e que seria melhor se os navios fossem desmantelados e o material reciclado.

Por outro lado, o afundamento dos navios, que se tornarão recifes artificiais, «vai alterar o habitat natural (zona de areia), onde há espécies específicas como os linguados», explicou.

O projeto pode, por isso, levar a que naquele local se fixem espécies exóticas, porque vão encontrar ali as condições ideais para habitar.

«A LPN tem algumas reservas» e considera que um projeto desta dimensão deveria ser sujeito a um estudo de impacto ambiental com discussão pública, afirmou a ambientalista.


27 de Março de 2011 | 02:44
ana sofia varela



Museu Subaquático de Portimão

Do jornal "BARLAVENTO" e com a devida vénia transcrevemos a seguinte notícia:

Primeiro navio do Museu Subaquático de Portimão vai ao fundo este ano




Navio ocenográfico Almeida Carvalho será uma das embarcações da marinha a ser afundadas
O Museu Subaquático de Portimão deverá começar a ganhar forma este ano, quando for afundado ao largo de Alvor, o primeiro navio de guerra da Armada Portuguesa, de um total de quatro.

A Câmara de Portimão e a empresa privada Subnauta (centro de mergulho na Praia da Rocha) estão a criar a associação Submar, «estando já a ser articulado com o Ministério da Defesa a hipótese do primeiro navio ser desmantelado nos estaleiros de Portimão, numa iniciativa que criará postos de trabalho na cidade», adiantou ao «barlavento» Luís Carito, vice-presidente da Câmara local.

Os quatro antigos navios da Armada, que serão afundados – o navio oceanográfico «Almeida Carvalho», a fragata «Hermenegildo Capelo», a corveta «Oliveira do Carmo» e o navio-patrulha «Zambeze» - estão desativados e foram cedidos à autarquia a custo zero. A parceria teve que ser feita, pois o privado não poderia ter recebido estas embarcações.

«Ao fim de quatro anos de luta, o projeto está lançado e tudo indica que este verão já teremos o primeiro navio no fundo», afirmou em declarações ao «barlavento» Pedro Caleja, dive master e arqueólogo subaquático da Subnauta.

O passo seguinte, antes de afundar os navios, é «limpá-los de todos os materiais contaminantes, como os amiantos, para que não constituam qualquer ameaça ao ambiente», explicou Pedro Caleja.

E, para assegurar que esta meta é cumprida, foram desenvolvidos e apresentados às entidades competentes, segundo o arqueólogo subaquático, vários estudos de impacte ambiental, de biologia marinha (para saber que tipo de espécies povoam as áreas e qual será o impacto do projeto), bem como prospeções arqueológicas (para garantir que o afundamento não ia prejudicar possíveis vestígios).

As embarcações serão afundadas a cerca de 30 metros de profundidade ao largo de Alvor, pois é necessário deixar pelo menos 15 metros entre o ponto mais alto do navio e a superfície para não causar impedimentos à circulação marítima.

«Não será difícil mergulhar nestes navios, mas será mais fácil se o mergulho for acompanhado por guias. No entanto, será acessível a quem tem curso de mergulho até 30 metros de profundidade», disse o mergulhador da Subnauta.

O maior navio tem 102 metros de comprimento e o mais pequeno 44 metros e as superestruturas estarão, à partida, acessíveis aos mergulhadores (Open Waters).

O acesso será público a quem cumpre as regras, estando a ser elaborado um regulamento.

O projeto, que implica um forte investimento, vai permitir colocar o Algarve no circuito de mergulho, aproveitando «o bom clima, as boas águas com muitas espécies de fauna», o facto de ser um destino barato e familiar, afirmou ainda Pedro Caleja.

Por outro lado, a Museu terá como vantagens trazer pessoas à região algarvia fora da época alta, dinamizando a hotelaria, a economia local e os concelhos periféricos.

As expetativas, para Luís Carito, são altas, pois se a situação no Norte de África se mantiver, «há vinte mil turistas de mergulho que não sabem para onde podem ir e estas são pessoas com capacidade económica.


27 de Março de 2011 02:20
ana sofia varela






domingo, 6 de março de 2011

Algarve e o Ciclone de 1941 - III

In "BARLAVENTO" de 4 de Março de 2011:

O ciclone de há 70 anos: «na aldeia da ilha Ançã nem destroços restam»




O «barlavento» termina aqui, com esta terceira parte, a evocação dos estragos causados no Algarve pelo ciclone que atingiu o país há 70 anos, no dia 15 de Fevereiro de 1941.

TEMAS: História e histórias do Algarve

Como seria de prever, o ciclone atingiu fortemente as ilhas barreira da Ria Formosa: «Na ilha da Culatra desapareceram muitas barracas de pescadores, que se dirigiram ao departamento [Marítimo do Sul] a pedir providências. Os marítimos das ilhas perderam os seus barcos e os apoios de pesca. Os ilhéus foram vacinados, devido a terem aparecido doentes atacados de varíola. A barca do porto comum foi parcialmente destruída».

«Há, porém, um facto que sobreleva todos os outros: A destruição da aldeia da ilha Ançã [Ancão – Praia de Faro], da qual nem destroços restam. Ondas gigantescas, de altura inconcebível, invadiram de súbito a pequena língua de terra. Nada podia resistir-lhes. Casas, redes, pequenas embarcações, o arraial da armação da pesca de atum «Cabo de Santa Maria» - tudo foi reduzido a migalhas num abrir e fechar de olhos. E logo outras vagas arrastaram os restos daquilo, que momentos antes, fora uma povoação de gente humilde e laboriosa, agora lançada na mais negra e desoladora das misérias».

Ao todo, mais de cem pessoas, entre homens, mulheres e crianças, foram atingidos pela catástrofe, na hoje designada Praia de Faro.

«Próximo da ilha Ançã e junto do ilhote de Coleiros, a fúria do mar teve um efeito surpreendente: apareceu uma nova barra».

Na Fuzeta, «parte da povoação foi invadida pelo mar. Ficaram inundadas centenas de habitações». «Os prejuízos nas embarcações são elevados. A ria está assoreada, pelo que é impossível o tráfego».

Os pescadores perderam ainda todas as teias de alcatruzes utilizadas na pesca do polvo. Na mesma localidade, tal como em Moncarapacho e Pechão «há milhares de oliveiras derrubadas».

Por sua vez, em Vila Real de Santo António, «os campos sofreram uma razia, não ficando, em muitos pontos, uma árvore de pé. No rio afundaram-se numerosas embarcações, outras ficaram destruídas e ainda outras desapareceram. As canoas dos irmãos Jacinto e José Barão e do Sr. José Marques foram tragadas pelas águas, assim como os respectivos carregamentos de café e açúcar. Um «gasolina» da Empresa de Transportes do Guadiana ficou despedaçado. No local conhecido por Lasareto, as casas velhas ruíram. Abateram telhados e paredes nas fábricas de Sanches e Barroso, Raul Folques, Sales, Ramirez, Aliança e Paródi. (…) Na vila, o tanoeiro António Segura Rodrigues foi projectado de encontro a uma parede sofrendo fractura nos maxilares. (…) Na avenida da Republica o vento levou as guaritas da Guarda-Fiscal».

«Na secretaria da Câmara Municipal, todas as janelas ficaram estilhaçadas. Correram perigo os funcionários e algumas pessoas que ali se encontravam, chegando a esboçar-se o pânico. Embora sem gravidade, há pessoas feridas com os estilhaços dos vidros».

«Por todo o lado há candeeiros de iluminação destruídos, postes telegráficos e telefones derrubados – o que tem impedido as comunicações com o resto da província e nomeadamente a capital – casas destelhadas, empenas caídas e árvores arrancadas. A caminho de Castro Marim o aspecto é ainda mais desolador. Toda a margem de terrenos cultivados alagaram-se, estando completamente inutilizadas as sementeiras de cevada, trigo e fava. A água subindo em verdadeiras cortinas, avança na parte baixa da vizinha cidade espanhola de Ayamonte, inundando-a completamente. Devem ser importantes os estragos ali ocorridos. Na povoação espanhola de Canelas caiu parte do campanário duma igreja».

Na velhíssima cidade de Tavira, «contam-se às dezenas os prédios que sofreram prejuízos. Na fábrica de moagem de J. A. Pacheco, o vento levou grande parte da cobertura, o mesmo sucedendo no armazém contíguo à moagem da firma Araújo Ribeiro & Dias. Na fábrica de conservas Balsense e na casa do salva vidas também abateram os telhados».

Também em Tavira, «o Bairro Jara habitado por gente pobre foi atingido gravemente, havendo moradias que ficaram destelhadas e em ruínas. Na bacia das Quatro Águas uma barca da Companhia de Pescarias Algarve, denominada Moagem, foi ao fundo, carregada de sal. Os batelões da mesma companhia que estavam junto do rio, que corre paralelo à costa foram atingidos pelas vagas, afundando-se. Na ilha de Tavira a água do mar juntou-se à do rio, pondo em sério risco o arraial da armação daquela empresa. A maioria das cabanas existentes na ilha foi levada pela corrente. No campo, milhares de árvores foram destruídas [No sítio das Cabanas, um olival, de que é proprietário o Sr. José Chagas, de cerca de trezentas árvores, só oito ficaram de pé]. Não há comunicações. A camioneta que faz a carreira diária entre a cidade e a vila de Alportel foi atingida por uma árvore».

«No sítio da Fortaleza, junto da armação do atum, o mar abriu nova barra de grande extensão» Na freguesia da Luz, «até a erva foi queimada pelo vento».

Reconstrução e situação atual

Os prejuízos totais na região foram contabilizados, dias depois do ciclone e segundo o «Diário de Notícias», em 50 000 contos (aproximadamente 250 mil euros, mas que, a valores atuais, ascenderiam a mais de 10 milhões de euros). A economia do Algarve ficou fortemente afectada e os mais pobres duramente atingidos, tanto mais que «as sementeiras de fava e ervilha, que constituem uma grande riqueza do Algarve e a base de alimentação das classes menos abastadas nesta quadra, podem considerar-se perdidas».

Mas os algarvios não se detiveram perante tão grande adversidade. Foram vários os gritos de socorro às entidades, emanados através dos jornais, como em Salir: «Centenas de camponeses, olhos rasos de lágrimas procuraram o correspondente do Século e pediram-lhe que, por intermédio do nosso jornal, se solicitassem providências ao Governo».

Até em Lisboa «uma comissão de estudantes algarvios, de várias Faculdades», coordenados por Maria Odete Leonardo, resolveu «recolher donativos para acudir aos seus conterrâneos».

António Graça Mira, contemporâneo aos acontecimentos, recorda ainda os cortejos de ofertas, que se realizaram um pouco por toda a região, bem como o imposto de um tostão, ambos destinados ao auxílio das vítimas.

O Carnaval de 1941, cujos festejos ocorreram a 25 de fevereiro, foi bastante discreto em todo o território. Mas em Loulé e em exceção, o corso saiu à rua, ou não se destinassem as suas receitas a apoiar o funcionamento do Hospital da Misericórdia.

A liderar o processo de restabelecimento do país esteve um algarvio, o louletano Eng. Duarte Pacheco, que à época ocupava o cargo de Ministro das Obras Públicas e Comunicações. O seu empenho e a pronta ação foram meritórios, permitindo normalizar “rapidamente” o país após tão pesada calamidade.

Em Portimão, data desta época a construção do bairro do Pontal, precisamente para alojar as famílias pobres que viram as suas casas e barracas destruídas pela violenta tempestade.

O ciclone marcou duramente a paisagem do Algarve, muitas árvores centenárias desapareceram e hoje dificilmente se imagina, por exemplo, a estrada de Faro a Olhão ladeada de eucaliptos. Interessante é constatar como a economia algarvia se transformou tanto nas últimas décadas.

Atualmente, já não seriam destruídos barcos carregados de esparto, de conservas, ou mesmo de açúcar. A freguesia de Pêra já não abastece Lisboa de favas ou ervilhas, e nem haveria no Algarve chaminés de fábricas de conservas, ou mesmo de cortiça, para derrubar. A produção de amêndoa, à época tão importante na economia regional, é hoje residual.

Mas o quotidiano e os hábitos dos algarvios também se modificaram substancialmente. Em Alte, como em toda a região, já não se cozinha com a água das goteiras, nem as favas e os griséus são a base da alimentação, ou exclusivas desta quadra.

Como se comportariam hoje os prédios da Praia da Rocha perante um ciclone? Ou todos os outros prédios por esse Algarve fora? É algo que devemos equacionar.

Afinal hoje, tal como ontem, não estamos livres dos efeitos de um novo ciclone extra-tropical.

Outras tempestades têm fustigado Portugal e o Algarve nos últimos 70 anos, mas felizmente

4 de Março de 2011 23:43
Aurélio Nuno Cabrita*



Algarve e o Ciclone de 1941 - II

In "BARLAVENTO" de 27 de Fevereiro de 2011:

Os relatos dramáticos dos estragos no Algarve causados pelo ciclone que atingiu Portugal há 70 anos



No dia 15 de fevereiro de 1941, um ciclone extra-tropical atingiu o país, deixando um rasto de mortes e prejuízos por toda a parte. Hoje continuamos aqui a descrever o que se passou no Algarve, nesse fatídico dia há 70 anos.

TEMAS: História e histórias do Algarve

Em Portimão, «o ciclone, que atingiu cerca de 150 km/h, causou grandes prejuízos nesta cidade e seu porto, na Praia da Rocha e campos vizinhos. No porto, garraram muitas embarcações e outras foram à deriva rio acima, depois de rebentadas as amarras. As águas do rio subiram, inundando completamente o largo Heliodoro Salgado e as ruas circunvizinhas».

Os prejuízos «sobem a milhares de contos. (…) Árvores arrancadas pela raiz, sementeiras destruídas, casas desmoronadas, grandes avarias nas redes eléctricas, telefónica e telegráfica. A casa Fialho deve ter sido a que mais prejuízos sofreu. O vento deitou a terra a sua fábrica de S. Francisco. Casa do descabeço, casas de enlatar, armazéns, casas dos operárias – tudo o vento arrasou», referiam os jornais da época.

«Abateu o barracão da Junta Autónoma dos Portos do Algarve, ficando esmagados alguns barcos do Club Naval de Portimão que lá se encontravam», acrescentava o periódico.

Os mercados do peixe e agrícola ficaram sem telhado e na Praia da Rocha o cinema ficou destruído. O jornal local «Comércio de Portimão» refere, na sua edição de 18 de fevereiro de 1941, que o ciclone atingiu o pico na cidade às 13 horas de sábado, com tal violência que «grande parte da população julgou chegado o seu último dia», as pessoas que «se aventuravam a circular nas ruas foram derrubadas e atiradas ao chão ou de encontro às paredes dos prédios».

Enquanto isso, na Baixa de Portimão, «voaram a maior parte das lâmpadas e globos dos modernos candeeiros».

Na Mexilhoeira Grande, «os favais estão completamente perdidos e poucas esperanças restam de salvar qualquer colheita».

Também em Silves se registaram muitos danos: «abateu a fábrica de cortiça da firma Coutinho & C.ª. Morreu na derrocada um rapaz de 13 anos e ficou outro gravemente ferido».

Esta não foi, contudo, a única fábrica destruída, já que os jornais da época referem que «sofreram prejuízos importantes as fábricas de cortiça de Bento Monteiro, de José Cruz, de Abílio Braz, de Aldemiro Mira e José Duarte. No cemitério, caíram todos os ciprestes. Os eucaliptos e cedros que ladeavam a Cruz de Portugal, monumento nacional, caíram, tendo apenas destruído parte do gradeamento do monumento».

O ciclone terá derrubado em Silves mais de 300 eucaliptos, e os prejuízos neste concelho foram estimados em mais de 1000 contos. Na freguesia de Armação de Pêra, «o mar destruiu a esplanada, deslocando enormes rochas. Mais de quarenta barcos foram atirados contra os fraguedos, ficando estilhaçados. Os prejuízos foram enormes nas amendoeiras, nos favais e nos ervilhais de Pêra, região que abastece Lisboa».

Ainda em Algoz, «o mercado foi parcialmente destruído». Nesta localidade ocorreu, porém, um facto curioso: «as rajadas de vento levavam consigo água salgada, e atiraram aos ares os transeuntes desprevenidos».

Mas também em Alte (Loulé), choveu água do mar, «que queimou as plantas escapadas à fúria do temporal».

Na aldeia mais típica do Algarve, «algumas mulheres cozinharam com água aparada em vasilhas postas às goteiras, sem necessidade de lhe deitar sal. O resultado foi não poderem comer, por excessivamente salgados, os alimentos assim cozinhados. As próprias folhas das plantas, passado o temporal, tinham um sabor forte a sal».

Na hoje cosmopolita Albufeira, «o passeio marginal e a esplanada sofreram estragos. Sobre a ermida da Sr.ª da Orada caíram grandes ciprestes, que causaram prejuízos».

Ainda neste concelho, em Paderne, «toda a flor das amendoeiras e alfarrobeiras foi destruída».

Na Praia do Carvoeiro (Lagoa), «o mar invadiu a povoação arrastando os barcos através da rua principal. As casas dos habitantes, os chalés dos veraneantes, balaustradas e a escada que dá acesso à praia, sofreram danos enormes. Grandes blocos de pedra e areia cobriram as ruas».

Na estrada entre esta então aldeia e Lagoa, «foram arrancados pela raiz onze grandes eucaliptos, que destruíram numa grande extensão, a canalização de água desta vila». Ainda em Lagoa «abateu um armazém do Sr. Graça Mira».

Destruição sobre devastação que se repetiu um pouco por todo o Algarve, até no Cabo de São Vicente, se verificou um episódio inédito: «as vagas atingiram mais de 50 metros de altura, alcançando a instalação do farol [penetrando na casa das máquinas, facto até hoje nunca verificado]. Foram arrancadas rochas com o peso de muitas toneladas e projectadas a grande altura».

Nas Caldas de Monchique, «a famosa mata sofreu prejuízos enormes. Sobre a Pensão Internacional caiu um eucalipto que causou importantes danos. Na estrada de Portimão a Silves, foram derrubadas centenas de eucaliptos».

Também em Monchique houve casas destruídas e muitas árvores caídas.

Em Odeceixe (Aljezur), «o vento partiu e arrancou árvores, destelhou a maior parte dos prédios da povoação e fez cair a platibanda do prédio do Sr. José Paulino da Silva. As várzeas foram invadidas pelas águas do mar».

Já em Lagos, «o mar danificou a linha férrea, próximo da praia de S. Roque, e derrubou a parede fronteira ao mercado do peixe, pondo em risco as embarcações que se tinham refugiado na Porta de Portugal. O vento derrubou as chaminés de seis fábricas de conservas de peixe e de muitas casas particulares e a balaustrada do edifício dos Paços do Concelho. Como em todo o Algarve os prejuízos foram importantes no arvoredo».

No Sotavento, em Olhão, ocorreu ainda um facto singular: «tal violência atingiu o ciclone que uma lancha foi pelo ar desde a ria até ao Largo da Feira, numa distância de cerca de cem metros. Em frente à praça do peixe, dois homens foram erguidos pelo vento e atirados de encontro à parede».

Já a «cobertura da serração Leal desapareceu por completo», enquanto um moinho de vento, propriedade do Sr. Tomás Saias, era derrubado.

Mas foi nesta localidade que ocorreu um dos episódios mais emocionantes daqueles dias, o naufrágio dos veleiros «Alvorada» e «Natal»: «Ambos estavam carregados de conservas quando o ciclone chegou. Em poucos minutos, os barcos afundaram-se, enquanto outros (cercos de pesca e de diferentes categorias) eram arremessados de encontro às muralhas da doca, com formidável estrondo. Apavorados, vendo que a fúria do mar aumentava, os tripulantes do «Natal» e «Alvorada» subiram aos mastros e ali ficaram agarrados, com as forças centuplicadas pelo desespero. (…) Em altos gritos, pediam auxílio divino, pois viam que de terra, era impossível, nessa altura, mandar-lhes socorro. Da vila centenas de pessoas presenciavam, aterradas, aquela cena medonha. De súbito, houve um grito de espanto. Um homem, um valente – João Custódio, casado, 48 anos, natural de Olhão – meteu-se no seu barquito e, perante todos os que o viam, tentou raivosamente ir socorrer os infelizes António Lemos e Manuel Bocas. O que se seguiu foi espantoso! As ondas ameaçavam tragar o frágil madeiro, de um instante para o outro. Mas o valoroso marítimo reagiu e alcançou o seu objectivo, recolhendo os dois desgraçados, que choravam de agradecimento. Daí a pouco, o mar vingou-se. O arrojado João Custódio foi projectado de encontro à muralha por uma onda monstruosa. O barco sumiu-se por um turbilhão de espuma. Todos julgaram que o temerário marítimo perecera, mar viram-no emergir e alcançar a terra. Da embarcação nada se salvou».

Quanto aos outros pescadores e de uma forma idêntica foram salvos e «afectuosamente recolhidos na residência de madame Eugénia Macé, gerente da fábrica Lory, que lhes deu agasalhos e bebidas quentes».

Na então vila piscatória afundaram-se quatro barcos, três batelões e dezenas de barcaças vazias, «que foram afundadas ou partidas, alem de inúmeros pequenos barcos de pesca, cujos humildes proprietários ficam na maior miséria».

Os prejuízos só dos quatro barcos de conservas afundados foram calculados entre 900 a 1000 contos, «importância parcialmente coberta pelo seguro».

Mas muitos outros prejuízos houve “especialmente nas fábricas de conservas, a Guerreiro & C.ª sofreu danos no valor de 18 000$00, e a de Pedro José, no de 50 000$00».

(Continua)

Nota: O jornal «Comércio de Portimão» foi gentilmente cedido pelo Centro de Documentação do Museu de Portimão.


27 de Fevereiro de 2011 10:41
Aurélio Nuno Cabrita*



Algarve e o Ciclone de 1941 - I

In "BARLAVENTO" de 15 de Fevereiro de 2011:

Algarve sofreu com o ciclone que atingiu o país há 70 anos, a 15 de Fevereiro de 1941



Há 70 anos, o Inverno resistia a ceder lugar à Primavera e, depois de vários dias de muita chuva, o pior aconteceu. Se a nefasta II Guerra Mundial ocupava até então, e consecutivamente, as primeiras páginas dos diários nacionais, um raro fenómeno meteorológico remeteu as notícias dos combates para as páginas centrais.

TEMAS: História e histórias do Algarve

Um terrível ciclone extra-tropical atingiu e devastou Portugal, a 15 de Fevereiro de 1941. Nesse mesmo sábado, o jornal «O Século» publicava uma notícia relativa a Olhão, datada do dia anterior: «Um fortíssimo temporal – o terceiro destes últimos dias - assolou hoje [14 de Fevereiro] esta região, causando sérios prejuízos nas embarcações, muitas das quais foram arrojadas de encontro ao cais».

Se a notícia era já por si má, longe estavam os algarvios de imaginar o que ocorreria nesse fatídico dia 15 de Fevereiro.

O boletim meteorológico apenas previa «aguaceiros alternados com abertas; ventos do quadrante W bastante fortes com rajadas e golpes de vento forte durante os aguaceiros». Em suma, tudo apontava para uma situação idêntica aos dias anteriores, mas a previsão falhou.

Naquele dia, teve lugar a maior tempestade até então registada pelo Observatório Meteorológico de Lisboa, criado em 1854.

Em escassas horas, a pressão atmosférica baixou drasticamente, determinada por um cavamento extraordinário de uma depressão que se deslocou, numa fase inicial, dos Açores em direção à Península Ibérica e, posteriormente, paralelamente à costa ocidental do continente, de Sul para Norte.

O resultado foi uma violentíssima tempestade que atingiu o auge em Portugal às 15 horas daquele Sábado Magro.

Os ventos alcançaram em Lisboa uma velocidade de 127 km/h, semeando o terror na capital, como em todo o país.

As consequências foram nefastas: além de várias horas de pânico vivido pelas populações, registaram-se dezenas de vítimas mortais e elevados prejuízos materiais.

Em todo um cenário dantesco, o Algarve não foi exceção. A imprensa da época, como «O Século» e o «Diário de Notícias», divulgou amplamente os efeitos na região.

O primeiro daqueles periódicos traçou mesmo uma síntese a nível regional: «A província do Algarve foi assolada por um violentíssimo temporal, que causou prejuízos de grande monta, avaliados em dezenas de milhar de contos. A floração das amendoeiras foi desfeita pela ventania e tem-se como certa a perda quase total da produção do fruto, o que agrava consideravelmente a crise. Grandes trovoadas pairaram por toda a região. Muitas casas ficaram destruídas ou sem telhados e a violência da tempestade fez-se sentir, em especial nas zonas fabris e nos aglomerados de habitações de gente pobre. Há milhares de árvores derrubadas. No litoral, a tormenta atingiu inaudita violência e o mar tocado pelo ciclone, invadiu grandes extensões de terra cultivada, devastando completamente sementeiras e pomares. Por toda a parte há tristeza e desolação».

O vento terá soprado a uma velocidade de 140 km/h no Algarve e, nas palavras do correspondente do «Diário de Notícias», «tudo foi varrido, esfacelado, aniquilado».

Em Olhão, «muitas são as embarcações que estão avariadas ou afundadas. Várias embarcações carregadas de esparto foram atiradas para terra perdendo-se a carga. (…) Na fábrica de conservas Figueiredo & C.ª abateu o telhado, havendo prejuízos no valor de 150 contos. Outro tanto sucedeu a outras fábricas, casas e edifícios da companhia Portuguesa de Congelação, onde abateu uma parede. Os empregados nada sofreram por ser hora de almoço. O cinema Apolo ficou completamente destruído. Os telhados da maior parte das fábricas foram pelos ares o mesmo sucedendo às árvores da rua da República e aos postes de iluminação pública. (…) As sementeiras estão completamente destruídas. Só na horta da Penha, propriedade do Sr. João Neto, há mais de 200 amendoeiras arrancadas pela raiz. O fornecimento de energia eléctrica está também interrompido desde ontem [14 de Fevereiro]».

Quanto aos acessos à capital de distrito, «na estrada de Faro a Olhão caíram mais de 200 eucaliptos; e entre aquela vila e Portimão contam-se 470 postos telegráficos derrubados».

O tráfego automóvel era pois muito condicionado, e como se isso não bastasse, «as linhas telefónicas estão interrompidas; os comboios não podem circular por as vias estarem obstruídas com postes e árvores. Na estrada de Portimão, um garoto cuja identidade se desconhece, foi morto pela queda de uma árvore».

Já no sítio das Figuras (em Faro), «foram derrubados todos os eucaliptos ali existentes, assim como os postes telegráficos e telefónicos».

No dia 16 era feito o balanço: «Os prejuízos em Faro são como já dissemos, muito importantes. No cemitério caíram numerosos ciprestes que atingiram vários jazigos e levantaram muitas sepulturas. Abateu também um muro de um quintal na rua de Alportel e a platibanda de uma casa na rua Coelho de Melo. Na estrada de Loulé foram derrubados todos os eucaliptos e todos os postes telegráficos».

Também o Liceu João de Deus sofreu muitos estragos, de tal forma que as aulas acabaram por ser suspensas.

Em Santa Bárbara de Nexe e Estoi, «a violência do vento devastou completamente sementeiras e destruiu numerosas árvores».

No jardim público de Estoi, «caíram alguns dos grandes ciprestes que ali existem. Uma dessas árvores seculares, cujo tronco dificilmente seria abraçado por oito homens, foi arrancado pela raiz. Em toda a aldeia, cuja população é constituída por pequenos proprietários, a desolação é completa».

Já em Loulé, «os prejuízos são também enormes. Parte da rede eléctrica ficou danificada, tendo-se interrompido por completo, o serviço telegráfico e telefónico. O trânsito nas estradas também ficou interrompido, por motivos dos desabamentos de árvores, o mesmo sucedeu na linha férrea. Desabou o «esqueleto» dos bombeiros, em cima de uma habitação que ficou muito danificada. Muitas outras casas ruíram, e só na rua do Prior aluíram cinco prédios. Nos campos e arredores há estragos incalculáveis».

Afinal, «perdeu-se totalmente a colheita de amêndoas e houve propriedades que quase ficaram limpas de arvoredo e com os favais e searas queimados», noticiavam os jornais da época.

Em Quarteira, «também se verificaram importantes estragos, pois o mar avançou pela povoação, derrubando casas e arrastando tudo em turbilhão. Junto à estrada nuns pinheirais foram derrubadas mais de cem árvores».

Na então aldeia piscatória, a violência do mar demoliu ainda «a parede principal do quartel da guarda-fiscal».

Também a «antiga fábrica da Sociedade de Transportes e Comércio foi parcialmente destruída, assim como casas onde estavam instalados estabelecimentos e armazéns de peixe. O importante olival existente na estrada de Loulé para a estação, pertencente ao Sr. Cipriano Neves, sofreu igualmente muitos estragos. Foram destruídas mais de 150 árvores».

Na freguesia de Salir, «houve danos incalculáveis. Caíram milhares de sobreiros, eucaliptos, amendoeiras, e ficaram devastados hortas e pomares. O vendaval arrasou ou destruiu os tugúrios de gente humilde que ficou desabrigada e na maior miséria. Os prejuízos são avaliados em mais de 10 000 contos. Nada escapou à fúria do vento que até levou a cruz do presbitério e devassou os jazigos no cemitério. (…) Para a desgraça ser maior as feras acossadas pela fome desceram aos povoados e devastaram os rebanhos».

Na vizinha freguesia de Querença, até a ponte junto à Fonte de Benémola (na fotografia) ruiu com a tempestade.

(Continua)

Bibliografia: Jornais “O Século” e “Diário de Notícias” de Fevereiro de 1941 e http://www.meteopt.com

Fotografia gentilmente cedida pelo Eng.º Luís Guerreiro, Chefe da Divisão de Cultura e Museus do Município de Loulé


*Investigador de História Local e Regional



15 de Fevereiro de 2011 15:00
Aurélio Nuno Cabrita*


sábado, 26 de fevereiro de 2011

Viva Portugal do "deixa andar"

Agora que tanto se fala da "geração à rasca", da "geração nem-nem", dos Deolinda e a sua canção "Parva que eu sou", tudo relacionado com a situação a que uma geração de "políticos iluminados e inteligentes" nos conduziu é URGENTE e NECESSÁRIO publicitar uma letra de uma canção de Paco Bandeira , a qual tem sido "CENSURADA" pelo status vigente e que dá o nome próprio aos bois.

A tal "CENSURA" já não é feita pelo lápis azul mas por outros métodos mais subtis. No entanto, os dias de hoje têm demonstrado que os meios de que dispomos de comunicação e informação por redes sociais e similares podem obviar a tais manobras "subterrâneas".

E as últimas semanas têm sido ferteis em o demonstrar no âmbito internacional.

Eis a letra e atentem ao que chegámos pelo comodismo:

«Viva Portugal do “deixa andar”
Viva o futebol cada vez mais
Viva a Liberdade, viva a impunidade
Dos aldrabões quejandos e que tais
Viva o Tribunal, viva o juiz
E paga o justo pelo pecador
Viva a incompetência, viva a arrogância
Viva Portugal no seu melhor

Refrão:
Viva a notícia, da chafurda social
De que o Povo tanto gosta
Espectáculo da devassa
Viva o delator sem fuça
É a morte do artista

Viva a pepineira do «show-off»
Dos apresentadores de televisão
Viva a voz do tacho de quem vem de baixo
Do chefe do ministro do patrão

E viva a vilanagem financeira
E a licenciatura virtual
Viva a corretagem, viva a roubalheira
Viva a edição do «Tal & Qual»

Refrão
E viva a inveja nacional
Viva o fausto, viva a exibição
Da dívida calada, que hoje não se paga
Mas amanhã os outros pagarão

Viva a moda, viva o Carnaval
olarilas, olarilolé
Viva a tatuagem, brindo à bebunagem
Que vai na Internet e na TV

Refrão
Calem-se o Cravinho e o bastonário
O Medina, o Neto e sempre o Zé
Viva o foguetório, conto do vigário
Que dá p’ra Aeroporto e TGV

Viva o mundo da publicidade
O «share» ou não «share» eis a questão
O esperto da sondagem, o assessor de imagem
Viva o fazedor de opinião»


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Balsa - Metrópole Romana do Algarve II

Com a devida vénia transcreve-se do jornal "BARLAVENTO" de 12 de Fevereiro de 2011:

Balsa: Moradias escondem passado de Tavira





Balsa foi uma importante cidade romana portuária da Hispânia, que existiu na atual freguesia de Luz (Tavira), nos terrenos litorais da Torre d'Aires, Antas e Arroio.

A história de Balsa romana inicia-se no século I a.C. e termina no século V ou VI da nossa era. Teve o seu apogeu no século II, chegando a ocupar 47 hectares, dimensão acima da média urbana da província da Lusitânia, a que pertencia.

Destacava-se relativamente a Olisippo (Lisboa), Ossonoba (Faro) e Conímbriga (Condeixa-a-Velha) e era oito vezes maior do que os 5,5 ha da zona amuralhada da Tavira medieval.

Cunhou moeda própria e o nome Balsa registado nestas moedas é o registo mais antigo do topónimo.

Testemunhos anteriores a 1978 descrevem a existência de ruínas romanas muito extensas no local. Desde então, o terreno arqueológico tem sido destruído por trabalhos agrícolas e pela construção de moradias e infraestruturas.

A arqueotopografia revelou estruturas urbanas importantes como um teatro, um cais e um porto interior.

As coleções arqueológicas de Balsa estão espalhadas por museus e acervos privados, destacando-se a do Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa.

No Algarve, há materiais patentes ao público em Faro e Moncarapacho, mas as primeiras investigações no século XX foram feitas em 1977 pelos arqueólogos Maria e Manuel Maia.

Mais tarde, o CAT fez duas sondagens exaustivas ao terreno em 2000 e 2003.

12 de Fevereiro de 2011 09:42
filipe antunes



Balsa - Metrópole Romana do Algarve

Com a devida vénia transcreve-se o texto a seguir dado à estampa no jornal "BARLAVENTO" em 12 de Fevereiro de 2011:

Antiga metrópole romana espera por museu para se mostrar ao público


filipe antunes


Uma década de investigação sobre Balsa deu a Luís Fraga ambição para criar um centro interpretativo. Enquanto aguarda «vontade política», conteúdos recheiam biblioteca digital.

A associação Campo Arqueológico de Tavira (CAT) diz ter um conjunto extenso de materiais sobre a cidade de Balsa prontos a publicar e garante que a documentação por si produzida, nos últimos 10 anos, é já suficiente para fundar um centro interpretativo sobre a herança daquele período do Algarve romano.

Para tal, muito têm contribuído as sondagens e trabalho de investigação desenvolvido pelo geógrafo e investigador do Algarve Romano Luís Fraga da Silva, autor do livro «Balsa, Cidade Perdida».

Numa homenagem ao local, a obra descreve o papel desta grande cidade que existiu nas margens da Ria Formosa, perto de Tavira, e chegou a ser a mais importante do Algarve, com 45 hectares, o que a tornava, à data (século II), maior que Faro (Ossonoba) e Lisboa (Olissipo).

É tendo em conta esta grandeza que o também membro do CAT continua a lamentar o desinteresse das autoridades com responsabilidades na área do património, visto que apenas uma pequena extensão do núcleo arqueológico está protegida.

Ao mesmo tempo, aponta o dedo àquilo que considera «o silêncio secular da Câmara de Tavira sobre a velha cidade» e a sua «incapacidade de a integrar nos dispositivos municipais de promoção cultural e preservação patrimonial».

É, aliás, para evitar esse «esquecimento» que Luís Fraga mantém ativos dois sítios online, um deles exclusivamente dedicado a Balsa, com dezenas de referências e conclusões sobre a investigação por si levada a cabo na última década.

Com uma extensa cartografia, textos históricos e até módulos de uma exposição patente na «Casa André Pilarte», em 2008, o investigador conseguiu já criar um museu online gratuito, pronto a evoluir para um centro interpretativo.

«O CAT já provou que o consegue, através de uma exposição de teste, que não chegou a custar cinco mil euros e pode ou não ser integrada num eventual núcleo romano do Museu de Tavira. É claro que podemos partir para meios de representação 3D mais caros, mas tudo se resume a uma questão de vontade política, uma vez que os conteúdos históricos e arqueológico estão prontos e não precisam de estruturas complexas», nota Fraga da Silva.

E há interesse por parte da população em saber mais? Segundo Fraga, a resposta é «sim», e lança como exemplo uma mostra do CAT realizada durante a feira de Santa Luzia (freguesia nas imediações de Balsa), onde «quase todos os habitantes mostraram ter histórias sobre achados não oficiais em Balsa».

A questão volta a estar na ordem do dia agora que o Museu Municipal de Tavira se prepara para inaugurar, na Páscoa, o seu Núcleo Islâmico, ao qual se seguirá a musealização de uma muralha fenícia.

Em declarações ao «barlavento», fonte do Gabinete de Apoio à Presidência explicou que o assunto de Balsa «não está esquecido», apesar de «terem sido definidas prioridades».

Segundo a mesma fonte, qualquer musealização que venha a ser feita sobre Balsa ou do período romano da cidade «deverá ser constituída em paralelo com o museu municipal, de forma a estruturar a promoção cultural e histórica da cidade».

Apesar de concordar com este modelo integrado, para Luís Fraga o que mais importa é voltar a chamar a atenção para a importância de Balsa, «que continua ameaçada por apetites imobiliários» e «não pode continuar a ser circunscrita à Torre de Aires».

«A zona da Torre de Aires é um dos maus exemplos de conservação, pois uma parte da quinta foi arrasada a bulldozer», frisa o geógrafo histórico, que continua a alertar para a necessidade de integrar Balsa numa zona de proteção mais extensa.

«À exceção de uma pequena faixa, a maior parte dos vestígios arqueológicos estão em terrenos privados, sem qualquer proteção legal», diz.

De acordo com o membro da direcção do CAT, um quinto da cidade romana ainda está «enterrada e intacta», como é o caso da zona das Antas.

12 de Fevereiro de 2011 09:41
filipe antunes



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

China e Ciência: Metas para 2020

Transcreve-se com a devida vénia o artigo dado à estampa no Scientific American de 1 de Fevereiro de 2011, onde se assinalam as metas que o governo chinês pretende alcançar em 2020 para o seu país em termos de Ciência.

China sets 2020 vision for science
Goals include commercialization of research and emphasis on energy, biomedicine and information technology.

February 1, 2011 5



By Jane Qiu


China is betting that an ambitious program of applied research will help to secure its future as an economic superpower. Innovation 2020, unveiled last week by the Chinese Academy of Sciences (CAS), maintains support for basic research. But the plan will place a new emphasis on translating the research into technologies that can power economic growth and address pressing national needs such as clean energy, said Bai Chunli, vice-president of the CAS, at the academy's annual conference in Beijing, where the plan was announced.


Innovation 2020 is an extension of the Knowledge Innovation Programme (KIP) launched by the CAS in 1998. Under the KIP, the academy streamlined its often overstaffed and outdated institutes, attracted outstanding Chinese researchers who had trained abroad, and tightened up the way it evaluated project proposals and performance. But the CAS now needs to support new priorities, says Duan Yibing, a policy researcher at the CAS Institute of Policy and Management in Beijing.


China has become a global economic power, and the world's financial crisis has made scientific innovation more important to economic success than ever before, he says. "Things are a lot different now compared to 13 years ago."


Although the budget of Innovation 2020 is yet to be announced, insiders say it will be part of a continuing surge in the nation's science spending (see "Spend, spend, spend"). Indeed, the CAS's expenditure on research and development (R&D) in 2009 was about 20 billion renminbi (US$3 billion), seven times the level in 1998, according to a KIP assessment report also released last week. This year's budget for the National Natural Science Foundation of China will increase by 70 percent, from 10 billion renminbi last year.


Innovation 2020 will kick off with new projects this year in seven key areas, including nuclear fusion and nuclear-waste management; stem cells and regenerative medicine; and calculating the flux of carbon between land, oceans and atmosphere. Other priority areas include materials science, information technology, public health and the environment.


To coordinate resources better and to foster multidisciplinary research, the academy will set up three research centers for space science, clean coal technologies and geoscience monitoring devices. It also plans to build three science parks--in Beijing, Shanghai and Guangdong province, respectively--to accelerate the conversion of basic research into marketable products, especially in renewable energy, information technology and biomedicine.


Pan Jiaofeng, deputy general secretary of the CAS, says the KIP's track record bodes well for the success of the new program. By the CAS's reckoning, in 2009, researchers that it funded published 3.5 times as many papers in journals listed by the Science Citation Index (SCI) as in 1998. Crucially, the number of papers published in the top 1 percent of SCI journals, as judged by their impact factor, was 12 times that in 1998. The CAS also calculates that research and development by the KIP generated an income of 140 billion renminbi and tax revenue of 22 billion renminbi in 2009--respectively 19.5 and 14.5 times the levels in 2000.


But the report acknowledges that there is substantial room for improvement. For example, CAS researchers should aim to become leaders of the international scientific community, and shift their focus away from generating as many papers as possible and towards genuine originality and innovation.


With its emphasis on applied research, the new initiative also "presents a major challenge to the management and organizational capabilities of the academy," says Richard Suttmeier, a science-policy researcher at the University of Oregon in Eugene. He notes that most CAS institutes are focused on academic disciplines and lack the infrastructure needed for commercializing research or directing it towards national needs.


Others think that the emphasis on applied research, national needs and revenue could stifle curiosity-driven research. Without that, says a Shanghai-based researcher who declines to reveal his identity, "it would be very difficult to have genuine innovation."


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A segunda exumação de Tycho Brahe

Quando ouvimos falar da segunda exumação de um cientista, a anterior já conta mais de um século, para se tentar determinar a exacta razão da sua morte, consoante a ciência forense vai melhorando, não podemos de deixar de rir, sim rir porque tudo o mais seria escabroso aqui mencionar, acerca da primeira exumação de D. Afonso Henriques. Para onde vais tu, Portugal?

A seguir o texto publicado na Scientific American:

Was Tycho Brahe poisoned? 16th-century astronomer exhumed--again
By John Matson Nov 15, 2010 06:35 PM 1

There is no shortage of lore surrounding Tycho Brahe. For starters, the 16th-century Danish astronomer famously lost part of his nose at age 20 in a duel with another nobleman and thereafter wore a metal prosthesis on his face. Then, take this bizarre snippet from an eponymous 1890 biography of Brahe by J.L.E. Dreyer:

Two other inmates of Tycho's house may also be mentioned here. One was a maid of the name of Live (or Liuva) Lauridsdatter, who afterwards lived with Tycho's sister, Sophia, and later was a sort of quack-doctor at Copenhagen where she also practised astrology, &c. She died unmarried in 1693, when she is said to have reached the ripe age of 124. The other was his fool or jester, a dwarf called Jeppe or Jep, who sat at Tycho's feet when he was at table, and got a morsel now and then from his hand. He chattered incessantly and, according to [Brahe's assistant] Longomontanus, was supposed to be gifted with second-sight, and his utterances were therefore listened to with some attention.

Later in his life, as court astronomer to Emperor Rudolph II in Prague, Brahe collected some of the best observations of his day for the positions of celestial bodies in the sky, which his successor, Johannes Kepler, would later publish as The Rudolphine Tables. To top it off, Brahe died at age 54 after, as the story goes, he stayed at the table too long without relieving himself during a formal dinner, possibly bursting his bladder in the process.

That last legend may soon be challenged, as Brahe is being disinterred starting November 15 for analysis for the second time since he was buried in Prague in 1601. Testing on hair samples taken from Brahe's tomb the first time, in 1901, showed an abnormally high mercury content in the astronomer's body, raising the possibility that he had been poisoned. But Brahe may well have met his fate by less malicious means; for centuries medical practitioners applied mercury as a treatment for maladies such as syphilis. The 1890 biography of Brahe—written before the mercury test—noted that rumors of Brahe's poisoning swirled after his death. But Dreyer dismissed such "silly" talk as "scarcely worth mentioning."

The poison angle got a new look in 2004 in the book Heavenly Intrigue: Johannes Kepler, Tycho Brahe, and the Murder Behind One of History's Greatest Scientific Discoveries. Not only was Brahe poisoned, contended Joshua and Anne-Lee Gilder, but all signs point to his famed protégé, Johannes Kepler, as the culprit. (Kepler's motive would have been to get hold of Brahe's tightly kept treasure of data.) But the astronomical community hardly turned on the esteemed Kepler—in a review of the book, Marcelo Gleiser of Dartmouth College wrote that the accusation "verges on the preposterous."

The new exhumation is being led by medieval archaeologist Jens Vellev of Aarhus University in Denmark. Vellev told the Associated Press that he hoped to not only analyze Brahe's mustache and hair, but also his bones. The group aims to learn more about Brahe's health and medicinal intake and, just maybe, to find some new information about his untimely demise.

"Perhaps we will be able to come close to an answer," Vellev told the BBC, "but I don't think we will get a final answer to that question."



More Observations:
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1. doug l
05:47 AM 11/16/10The world in which Tycho Brahe lived was one in which science, medicine, philosophy and superstition were all tightly bundled and inextricably bound, which makes his objective and highly detailed work describing the heavens and their residents all the more remarkable.
Is there any doubt that he was also involved in alchemy?The self administration of mercury or as it was known Quicksilver, is not an unlikely prognosis considering that many alchemists, including Isaac Newton later in the 17th century who is reputed to have routinely experimented with topical applications of mercury, had good reason to believe that quicksilver represented a component of matter, extracted by mining various precious metals deep within the earth there in Bohemia and the Orange region of Eastern Germany, where metals were presumed to be incubating, which embued other matter with qualities that gave long life and curative powers to others materials. Raw metals when found in hard rock often resemble living organisms with branches and vessels that seem to say to the observer that they are a species of living organism.
Coincidentally I was in Prague only a month ago and happened upon Brahe's grave in the Church of the Madonna on Tyn . Wish I could have been there to observe the exhumation.

Continente Americano - EUA - Cólon - Islândia - Genética

Nunca se afirmou que Cristobal Cólon fosse o primeiro a chegar aos EUA, pelo menos quem fosse de bom senso e tivesse estudado um pouco de História. Agora chega da Islândia, através da genética e da análise do ADN que no início do primeiro milénio da era de Cristo, houve expedições ao norte dos EUA por parte da Islândia.

ESTUDIO GENEALÓGICO
La genética avala que los vikingos llegaron a América antes que Colón
Un estudio con participación española revela a partir del ADN que una expedición islandesa llevó a la isla a una india, que dejó su linaje a lo largo de generaciones

Autor:
R. Romar
Localidad:
redacción/la voz.
Fecha de publicación:
16/11/2010

La sorpresa saltó en un análisis rutinario de laboratorio. «¡Pero qué demonios pinta el linaje C1e en Islandia!», debió de exclamar el técnico. El estupor no era para menos. La muestra genética delataba un origen amerindio. Y o bien procedía de un nativo americano o de un individuo del este asiático. Pero ¿en Islandia? La sorpresa se convirtió en un hecho extraordinario cuando los investigadores de la empresa biofarmacéutica deCODE, que posee muestras genéticas del 80% de la población islandesa, tiró del hilo de la genómica. El mismo linaje se encontró posteriormente en cuatro familias, integradas por unas ochenta personas, que vivían aisladas en el sur de la isla. Fue entonces cuando entró en escena el estudio genealógico para aclarar el misterio. Las evidencias indicaban que su origen se remontaba, al menos, hacia el año 1700. Eran, por tanto, genuinos islandeses, pero con una huella amerindia en su genoma.

Como quiera que por aquel entonces Islandia estaba totalmente aislada, solo queda una explicación verosímil sobre el origen del linaje: que proceda de una mujer india que los vikingos trajeron a la isla después de sus incursiones por el norte del continente americano, en Terranova, hacia el año 1000, fecha en la que los textos medievales islandeses sitúan la primera visita al continente, la realizada por Leif Erikson, el hijo de Erik el Rojo. De hecho, el linaje encontrado, el C1e, es de raíz mitocondrial (transmitido por las madres), lo que significa que estos genes fueron introducidos en la isla por una mujer. Esta conclusión, que ratifica desde la genética la teoría de que los vikingos llegaron a América cinco siglos antes de que lo hiciera desde España Cristóbal Colón, se recoge en un estudio que publica la revista científica American Journal of Physical Antropology, en el que, junto a la empresa deCODE y la Universidad de Islandia, también han participado científicos del Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC).

«No lo podemos demostrar al 100%, pero la hipótesis más plausible es que la mujer india fuera llevada por los vikingos a Islandia cuando hicieron su viaje a Terranova hace mil años», explica el investigador Carles Lalueza-Foz, que trabaja en el Instituto de Biología Evolutiva, un centro mixto del CSIC y la Universidad Pompeu Fabra.

Las explicaciones alternativas a esta teoría son, cuando menos, mucho más rocambolescas: que una población del este de Asia llegara a Islandia antes del 1700, algo prácticamente imposible, o que alguna de las indias que trajo Colón a España fuera llevada más tarde a la isla, lo que también resulta difícil de creer.

Pista genética

Pero confirmar la nueva pista genética tampoco será muy fácil. Las posibilidades pasan por encontrar restos humanos anteriores a 1700 en la zona donde viven las familias islandesas con el linaje amerindio o que se hallasen en América muestras de la misma variante genética, lo que parece poco probable si se tiene en cuenta que los indios nativos de Terranova quedaron prácticamente extinguidos en el proceso colonizador.

«El linaje se encuentra en América -señala Carles Lalueza-, pero no hemos encontrado a nadie que tenga exactamente la misma secuencia».

La investigación hispano-islandesa, que nació del azar de una prueba rutinaria en laboratorio, no deja de ser sorprendente si se tiene en cuenta que lo que hasta ahora los científicos esperaban encontrar era justamente lo contrario. «Lo que cabría esperar es que hallásemos huellas genéticas de europeos vikingos en América, pero lo que ha ocurrido es lo opuesto: que una mujer amerindia dejara sus genes en Europa», subraya

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Porque está a China tão agressiva?

Pelo seu interesse transcreve-se do La Vanguardia o seguinte texto publicado hoje e que apresenta uma análise interessante sobre este país.

¿Por qué arremete China?

Ian Buruma - 12/11/2010

Ha de ser irritante para el Gobierno chino seguir viendo premios Nobel que recaen sobre chinos que "no los merecen". El primero fue Gao Xingjian, dramaturgo, artista y novelista crítico que recibió el Nobel de Literatura en el 2000, exiliado en París. El último es Liu Xiaobo, crítico literario y escritor político que ha recibido el Nobel de la Paz de este año, mientras cumplía una condena de cárcel por "subversión" del régimen comunista. Como el Dalái Lama no es un ciudadano chino, dejaré de lado su Nobel de la Paz, aunque para los gobernantes de China tal vez fuera el más irritante de todos.

La reacción del Gobierno de China ante el premio de Liu ha sido sorprendente. En lugar de mostrar un desdén altanero o un silencio oficial, ha montado un alboroto colosal, al protestar vehementemente por las conspiraciones que socavan a China y someter a detención domiciliaria a decenas de intelectuales chinos destacados, incluida Liu Xia, la esposa de Liu. Debido a ello, el totalmente impotente y hasta ahora absolutamente desconocido Liu Xiaobo no sólo se ha vuelto mundialmente famoso, sino también mucho mejor conocido en la propia China.

Si a ello sumamos la intimidación de Japón por China al bloquear la exportación de metales de tierras raras decisivos para la industria japonesa por la controversia sobre unas islas deshabitadas entre Taiwán y Okinawa y su negativa a dejar que el yuan se aprecie, hemos de preguntarnos por qué está adoptando China una actitud tan brutal en sus relaciones exteriores. Japón, el antiguo enemigo de guerra, ha sido víctima repetidas veces de sus artimañas, y las muestras de tacto para con los surcoreanos y los asiáticos sudorientales hicieron que estos se sintieran relativamente cómodos con el aumento de la potencia china.

Pero el reciente comportamiento chulesco de China está haciendo cambiar de opinión a los asiáticos. Incluso algunos países podrían acercarse más a Japón, la única opción distinta de EE. UU. como contrapeso del Reino del Medio. No puede ser que sea eso lo que desee China.

Entonces, ¿por qué se muestra China tan severa? Una posible explicación es la de que está un poco embriagada con su nueva condición de gran potencia. Por primera vez en casi 200 años, China puede hacer sentir su influencia y hará lo que quiera, independientemente de lo que piensen los otros países. Hace unos decenios, era Japón el que pensaba que iba a ser el número uno y sus empresarios, políticos y burócratas no dejaban de hacérselo saber al resto del mundo. Podríamos considerar las acciones de China una revancha por un siglo de humillaciones.

Pero tal vez no sea esa la mejor explicación del comportamiento de China. De hecho, la razón puede ser precisamente la opuesta: una sensación de debilidad interna por parte de los gobernantes de China. Al menos desde 1989, la legitimidad del monopolio del poder por parte del Partido Comunista ha sido frágil. La ideología comunista es una fuerza apagada. La utilización del Ejército Popular de Liberación para asesinar a manifestantes civiles, no sólo en Pekín sino en toda China, en junio de 1989 socavó aún más la legitimidad del sistema de un solo partido.

La forma de recuperar el apoyo de la floreciente clase media china fue la de prometer un rápido salto a una prosperidad mayor mediante un crecimiento económico acelerado. El vacío ideológico dejado por la muerte de la ortodoxia marxista se llenó con nacionalismo. Yel nacionalismo en China significa una sola cosa: sólo el firme gobierno del Partido Comunista Chino impedirá a los extranjeros, en particular occidentales y japoneses, volver a humillar a los chinos.

Esa es la razón por la que quienquiera que desafíe la legitimidad del gobierno del PCCh exigiendo elecciones multipartidarias, incluso un intelectual relativamente desconocido como Liu Xiaobo, debe ser aplastado. Esa es la razón por la que el Gobierno no se atreve a dejar que el yuan se aprecie demasiado rápidamente, para que no se aminore el crecimiento económico. Y esa es la razón por la que intimidar a Japón siempre es una buena opción: los gobernantes de China no necesariamente odian a Japón, pero temen parecer débiles ante sus ciudadanos, a los que se enseña desde la guardería que las potencias extranjeras quieren humillar a China.

Eso indica que, si Liu Xiaobo lograra hacer realidad su deseo y llegase la democracia a China, el problema del nacionalismo no desaparecería. Si el pueblo se siente perseguido por Japón o EE. UU., exigirá políticas patrioteras. Pero el nacionalismo puede no ser una constante política. Con frecuencia lo que alimenta el nacionalismo es una sensación de impotencia. Cuando los ciudadanos se sienten privados de poder por un gobierno autoritario, lo mejor es que tengan la sensación de poder que brindan las proezas nacionales.

En cambio, en una democracia multipartidaria los ciudadanos tienen otros intereses, materiales, sociales e incluso culturales, por lo que son menos propensos a sentirse atraídos por el patrioterismo agresivo, o al menos esa esperanza debemos abrigar. El estado de muchas democracias actualmente no es la mejor propaganda de la libertad política, pero los chinos deben tener el derecho a decidir al respecto por sí mismos y Liu Xiaobo debe ser honrado por decirlo.




I. BURUMA ,profesor de Democracia y Derechos Humanos en el Bard College Copyright: Project Syndicate, 2010. Traducción: Carlos Manzano


domingo, 17 de outubro de 2010

Autarquias - Equipamentos Sociais/Lazer

Todos nós sabemos como tudo se passa neste capítulo quando estamos em tempo de promessas, que é com quem diz, em tempos de eleições.

Nessa altura, os candidatos a futuros caciques locais, efectuam todo o tipo de promessas para obter o voto dos seus eleitores locais. Os seus programas eleitorais estão bem fornidos de promessas, de todo o tipo, mesmo que muitas delas não façam qualquer sentido ou que muitas delas não sejam exequíveis face ao orçamento da autarquia.

Um dos capítulos em que as ofertas/promessas normalmente atingem o seu máximo é no que podemos genericamente designar por equipamento social. Este capítulo é normalmente dos mais bem recheados em termos de promessas até porque é o capítulo onde se podem extrair maiores dividendos eleitorais face ao âmbito em relação aos eleitores.

Prometer melhor assistência na saúde até é fácil: não depende da autarquia mas do Ministério da dita e qualquer falha rapidamente será assacada ao dito.

Prometer melhor assistência social até é fácil: não depende da autarquia mas do Ministério da Segurança Social ou de uma IPSS. Também aqui qualquer falha será alheia à autarquia.

Prometer melhor cultura também não é difícil. Normalmente existe um museu, uma biblioteca e um auditório, pelo que umas exposições de uns artistas que até agradecem, uns livros e umas palestras na biblioteca também são fáceis de organizar e no auditório dois ou três espectáculos mensais acrescido de uma ou duas conferências por mês e está o programa de promessas preenchido.

Resta-nos aquilo que vulgarmente se designa de equipamento social - lazer - movimento.
Poderemos imaginar que nesta rubrica, normalmente apresentada como um grande investimento e números sonantes, que teremos um espaço público, arborizado, aprazível e extenso, onde sejam possíveis várias actividades de movimentação, tal como agora são anunciadas como essenciais para a saúde dos munícipes, tais como marcha, corrida, ginástica e outras, efectuadas num autêntico pulmão do município.

É exactamente o tal tipo de actividades que levam o indivíduo não só a mover-se, como a arejar os seus pulmões com oxigénio puro do ar não poluído desse espaço, combatendo todo aquele tipo de problemas que a inactividade e falta de contacto com um ambiente sadio normalmente nos assolam.

E quando olhamos os números orçamentais prometidos nos tais programas eleitorais a nossa esperança de equipamentos capazes cresce a olhos vistos. Se calhar a tal pista em volta do tal parque onde poderei fazer o meu circuito de bicicleta ou a minha marcha, já não falando de corrida de fundo.

Uma vez eleitos o que é fornecido em troca do voto?

O tal parque, limita-se a meia dúzia de árvores raquíticas, envolvidas em pavimento cimentado que a relva é cara e custa dinheiro para a sua manutenção, encravado no meio de um amplo estacionamento. Só foi possível porque o tal local não dava para ser aproveitado para estacionamento.

E a tal pista, que no orçamento aprovado tinha números de sete ou oito algarismos, são as vias públicas do município, por sinal as de entrada e saída do mesmo e por isso com mais trânsito, onde foi pintado um traço azul ao longo das mesmas acompanhados a espaços por um desenho a branco de uma bicicleta.

Temos que convir que a lata de tinta azul, o rolo de pintura, o molde da bicicleta, a lata de tinta branca e o respectivo pincel, são investimentos de valor elevado aos quais o munícipe, atento venerador e obrigado, está agradecido.

Quanto a aquela recomendação dos técnicos de saúde de efectuar exercício em locais arejados e limpos, não há nada mais conforme do que uma via de trânsito, cheia de escapes de veículos automóveis expelindo anidrido carbónico misturado com hidrocarbonetos provenientes de combustões imperfeitas.

E o oxigénio ?

Bom! Não há mundos perfeitos.

Se não sentir a falta encha-se bem daquela "saudável mistura de gases". Se se sentir atrapalhado, quando chegar a casa ponha a máscara de oxigénio e abra a respectiva garrafa para "descarbonizar".

Acima de tudo não seja ingrato e não reclame junto do seu cacique local das promessas não cumpridas. Afinal de contas são apenas promessas!

Quanto às verbas: schiu!!! (Não se meta nisso que não tem vida para isso).

sábado, 17 de abril de 2010

António Barreto: "Os deputados são servos e gostam de ser servos"

Numa longa entrevista ao jornal " i ", António Barreto fala desassombradamente de nós, portugueses, e da nossa sociedade.

Pelo interesse que a mesma reveste, transcrevemos na íntegra a entrevista, desejando que muitos a leiam e tirem dela as ilações convenientes.



Entrevista
António Barreto "Os deputados são servos e gostam de ser servos"
por Sílvia de Oliveira e Filipe Paiva Cardoso, Publicado em 17 de Abril de 2010 Actualizado há 4 horas
.Portugal e os portugueses, o governo e os políticos, o bullying, a pedofilia e a felicidade. Três horas de conversa.

Durante três horas, entre entrevista e sessão fotográfica, não deu sinais de impaciência. Respondeu a tudo menos ao que diz mexer com a sua liberdade. António Barreto parece estar tão bem resolvido com a vida, que até dá inveja. Tem dúvidas e faz questão de as admitir. No final, pede para limparmos os lugares-comuns, como se não soubesse que nenhuma palavra sua é para deitar fora. O tempo foi curto, mas chegou para pensar.



Depois de tanto estudo e da análise de tantos números, sabe se os portugueses são felizes?

Essa é a pergunta do milhão de dólares. São rezingões, reclamam, protestam, queixam-se. Não creio que seja do ADN, tem razões históricas. É verdade que têm altíssimas aspirações, tantas quanto os países mais ricos da Europa. Conhecem esses países, já emigraram, foram de férias,sabem como funcionam, aspiram às c asas suíças, às férias francesas, aos serviços dinamarqueses, ingleses, à educação sueca. Acontece que do grupo de países ricos - do qual fazemos parte - Portugal é o último. A diferença entre o que temos e o que queremos é enorme.

Desejamos mas não conseguimos?

Quando um português vê como funciona uma escola secundária na Holanda ou em Inglaterra ou um centro de saúde na Suécia ou Suíça, fica impressionado com a rapidez, competência, prontidão, limpeza. E isso cria rezinguice, frustração. Daí não retiro infelicidade. Há uns 30 anos, veio ter comigo um matemático que trabalhava nas Nações Unidas. Estava preocupadíssimo porque queria encontrar um indicador, um só, que medisse a felicidade das pessoas. Fiquei estupefacto. O homem era muito capaz do ponto de vista técnico. Disse-lhe que acho que não se pode medir a felicidade das pessoas. Pode medir-se, perante certas situações, questões ou factos, um certo grau de satisfação. Mas a satisfação muda muito. A Fundação [Francisco Manuel dos Santos] vai ocupar-se disso. É possível, com barómetros que foram feitos há dez, vinte, trinta anos detectar a evolução das atitudes dos cidadãos perante certas coisas. Sabe-se, por exemplo, olhando para o Eurobarómetro, que a confiança dos portugueses, o grau de satisfação nalgumas instituições democráticas está em declínio. É possível medir perante coisas concretas.

O momento actual momento mais ou menos feliz?

Creio que é um momento menos feliz, de mais cepticismo, de menor capacidade de investir, no sentido de prever o futuro, de ter optimismo para antecipar o futuro, para criar, construir projectos de vida para si próprio, para os filhos, para os netos.

Porquê?

A situação é muito difícil. Há fragilidades muito grandes nas instituições. As pessoas não têm confiança.

Quais instituições?

Nas instituições da Justiça, à cabeça. Reclamam bastante do sistema de Educação, apesar de este se ter alargado bastante. Mas a verdade é que há muitos licenciados e doutorados desempregados, jovens que fizeram o 12º ano e que estão desempregados. E a expectativa das pessoas, foi isso que lhes disseram os governantes nos últimos trinta anos, é que se estudarem arranjam emprego. Mas estas coisas não são imediatas. E as pessoas estudaram e depois não têm o emprego que esperavam. Há um conjunto de situações sociais, económicas, políticas, institucionais que têm criado um ambiente razoavelmente depressivo ou de cepticismo.

Desilusão?

Sim. A vida política portuguesa, por exemplo. Não quero reduzir tudo à política, mas é o exemplo que me vem mais depressa à cabeça. A política portuguesa, desde há 30 anos, que é marcada por uma forte demagogia, por meias verdades, meias mentiras, muitas promessas. Nas últimas eleições já se calculava que o défice não era nada 3%, nem 5%, nem 6%. Já deviam saber o que se passava. E até não sei se a oposição não sabia também. O Banco de Portugal, as direcções-gerais e os institutos já sabiam que não era tão famoso como isso e decidiram ocultar.

Ou seja, enganar.

É, e das duas uma. Ou não sabiam e são absolutamente incompetentes - não é possível, tecnicamente, em trinta dias, passar de 4% ou 5% para 9,4% -, e deviam ir para a rua imediatamente, ou sabiam e mentiram à população. Isto traduz uma parte da atitude demagógica que é tradicional desde há 30 ou 40 anos. A maior parte dos políticos usa muitíssima demagogia, promessas, falsidades, ocultações, enganos. A aparência da vida política portuguesa é a instabilidade, mas não é não instável quanto isso. Andei entretido a fazer umas continhas. São mais elevados os números dos ministros de cada pasta do que os número de governos.

Mudam os ministros com demasiada frequência?

Houve dois governos do dr. Cavaco Silva, um do engº Guterres, dois do engº Sócrates, pelo menos quatro governos de legislatura completa. É razoável, é estável. Mas quando se vai ver, os ministros da Educação, os das Finanças, os do Trabalho mudaram três, quatro, cinco, seis vezes. Depois vemos que o número dos ministros das Finanças foi 30, o da Educação 28, o da Saúde ou das Obras Públicas foi 30 ou 32. Os ministros, mesmo do mesmo partido, quando entram desfazem, fazem o contrário. A vida política portuguesa é muito inexperiente, a democracia tem poucas horas de voo, pouca rodagem e iniciou-a já com a demagogia. É tão fácil prometer, gastar o dinheiro dos outros ? neste caso, dos contribuintes. Veja-se o que se passou, por exemplo, na segurança social, nos abonos de família, no desemprego, nos rendimentos sociais. A gente diz sempre, por compaixão, ?olha que bom, eram pobres, é preciso ajudar os pobres?. Mas também é preciso fazer contas. Quando vier a factura das parcerias publico-privadas, daqui a três ou quatro anos, vai ver-se o desastre. Isto traduz esta atitude muito demagógica, os dirigentes sabem que os meios são escassos, mas preferem governar e viver como se isso não fosse verdade. É possível gastar muitíssimo mais, pedir emprestado e hipotecar as gerações futuras. A população portuguesa, a meu ver, pela primeira vez desde há sete ou oito anos, começa a ficar consciente de que está a ficar num impasse.

Acha que se está finalmente a ganhar essa consciência?

Acho que sim.

Os portugueses são passivos, resignados?

Só não sei se isso é verdade, se os portugueses são mais resignados do que outros. No país da democracia mais antiga do mundo, o primeiro-ministro mentiu à população. E não num caso menor, mentiu para enviar o país em guerra. Ainda hoje há inquéritos para saber se mentiu ou não e a população inglesa não reagiu. A minha sensação, pelo que leio nos jornais, pelo que falo nas ruas, daquilo que oiço das pessoas com quem me dou, pelas sondagens que vão correndo, é que, desde há alguns anos, começou a criar corpo a ideia de que, afinal de contas, depois desta grande euforia do crescimento, que durou 20 ou 30 anos, começou a atrasar. Começa a sentir-se. Os pais sentem que os filhos não têm emprego ou não têm capacidade e começam a pensar em emigração. Há dias, estive numa escola a fazer uma demonstração do Pordata, e percebi que eles não estavam minimamente interessados em ficar cá. Para eles, ir para Espanha um ano ou dez, ou para França, ou para Inglaterra era a coisa mais natural do mundo.

Como é que essa tomada de consciência poderá ser útil para o país?

Este estado de espírito pode dar origem a várias coisas, mas não é automático. A pobreza pode dar passividade, como revolta. O despotismo pode dar abatimento, como revolução. Na física é que se diz que a água ferve a 100ºC, em certas circunstâncias, a tal altitude e pressão. Na sociedade não é assim. Acontecimentos parecidos podem ter como consequência revolta ou passividade, depende das circunstâncias. Efeitos como este, a emigração.

Esse representa um abandono?

Não, isto é energia, emigrar, ir trabalhar para outro sítio.

Mas para o país é negativo?

Quando as pessoas realizam um trabalho, a maior parte não está a pensar no que pode dar ao país, mas no que pode arranjar para a família, para si próprio e para os filhos.

É legítimo.

Então não é? Também é legítimo que, para além disso, se contribua com algo para a sociedade. Mas a primeira reacção, mesmo de uma pessoa altruísta, é pensar nos seus, na sua família, na sua comunidade. Isso é humano.

Hoje o que está em causa pode ser só ter um emprego.

Quem tem 18 anos e estudos sente que há noutros países mais oportunidades, que as sociedades são mais abertas, que há mais flexibilidade, mais concorrência no melhor sentido da palavra. Quem tem mérito consegue alguma coisa. Isto é uma das consequências possíveis. Outra consequência que também vem nos livros é uma espécie de perda de expectativa de futuro. Assim, vou consumir enquanto é tempo. Em Portugal, as pessoas estão sempre muito espantadas e repetem ?ainda dizem que não há dinheiro mas toda a gente vai de férias para Porto Galinhas, Punta Cana, Seicheles?. É esta conversa fiada todos os dias. As pessoas têm receio que as coisas sejam muito mais caras daqui a cinco anos, que venham a ter menos dinheiro, ou que o que têm agora valha menos. Isto é clássico. Perante estas circunstâncias, em certos caso,s raríssimos, pode dar para a poupança. As pessoas começam a poupar, a poupar, a poupar. Talvez a maior parte pense que o melhor é aproveitar agora.

Viver enquanto é tempo?

É um bocadinho.

E assim procuram algum conforto?

É, é. O país não dá bons exemplos. O país não poupa. O Estado gasta mais, tem os olhos maiores do que a barriga. O Estado quer fazer um TGV que ninguém pode pagar. O Estado fez auto-estradas como nenhum país da Europa. Há países muitíssimo mais ricos que têm muito menos auto-estradas do que Portugal. O Estado promete tudo e mais alguma coisa. São estes os exemplos que as pessoas recebem do estado.

Um exemplo. António Mexia, presidente da EDP, recebeu, nesta conjuntura, cerca de três milhões de euros em prémios.

Não gosto da questão da moral para os outros. Não gosto de fazer cerimónias. A moral, a ética pública é das coisas mais importantes. A responsabilidade, moral e ética de cada um, é das coisas mais importantes da vida. Nunca me exprimo sobre os salários, apenas sobre os dos que ganham pouco.

Porquê?

Porque é que me hei-de exprimir sobre os que ganham muito? Se ganham muito, alguma razão há-de haver. Ou merecem, ou têm direito, ou foi prometido quando foram contratados. Posso pensar que aquele ganha demais, ou que aquele ainda devia ganhar mais. Posso ter uma ideia dessas, mas porque é que vou transformar isso num juízo de valor? É uma questão menor.

Talvez a diferença entre os salários dos 10% mais bem pagos e dos 10% mais mal pagos seja um dos principais problemas do país.

O que é grave é que os de baixo ganham pouco, a quantidade de pessoas que ganham pensões que são metade do salário mínimo. Se pegar nos dez gestores mais bem pagos e lhes tirar metade dos vencimentos e distribuir o dinheiro pelos milhares de pessoas que estão naquelas condições, dá um euro a cada um. Isso de tirar aos ricos para dar aos pobres, quando se vai ver os números verdadeiros não bate certo. Prefiro agir por outros meios, em vez de estar a condenar pessoas. Há um problema de desigualdade social, então vamos ver se existe um problema, depois vamos ver em que é que esse problema se reflecte.Também acho que Portugal tem desigualdade a mais. Então vamos tentar esbater essa desigualdade. Posso esbatê-la por via do aumento dos que estão cá em baixo, ou por uma via fiscal, que é sempre preferível sempre, sempre, sempre. Porque é justa e clara para todos. E porque é que hei-de punir este, que sai no jornal, e não hei-de punir outro que não sai no jornal e que talvez ganhe mais. Eu posso ter muito dinheiro em offshores, no estrangeiro, noutros sítios, mas a condenação de alguém, o juízo de valor sobre uma pessoa em concreto só me interessa se puder transformar isso numa política pública, justa, transparente, conhecida de todos, com regras. Quero saber, se hoje pago 42% de IRS, quanto é que eu vou pagar daqui a três anos ou daqui a dez anos. Quero saber se vamos para o caso da Suécia, com 50% ou 60% de IRS. Agora, os que merecem? Por amor de Deus! Liquidar o mérito devido ao colectivo é das piores coisas que se pode fazer num país. E o mérito vai desde o electricista, ao soldador, ao gestor financeiro. Recompensar o mérito pelo trabalho bem feito, a tempo e horas, o trabalho honesto e sério, é melhor coisa que se pode fazer a um país.

A política de congelamentos salariais não cai um bocado nesse erro de impedir o mérito? Mas ao mesmo tempo, é uma necessidade.

Temos os dois problemas. Estou convencido de que é uma questão de necessidade. Portugal esgotou os seus recursos, não há. E durante cinco anos, vai ter que fazer muito mais, muito mais grave, muito mais duro e muito mais austero do que o PEC e do que tudo o que possa surgir. Vai doer muito mais. Porque há necessidade, não há dinheiro, não há produtividade, não há competitividade, não há produção. Produção mesmo, isto é, o que vem do mar, da terra, da indústria, os manufacturados, isso é 35% da nossa balança. O resto é serviços. Portugal não pode sobreviver assim, Portugal não produz. A política de austeridade, o corte de salários vai ser para toda a gente. Isto, por um lado é uma necessidade, desastrada, mas é uma necessidade, e, por outro lado, tem esse efeito, é apanhado pela mesma medida o preguiçoso e o eficaz, o diligente e o malandro, o cumpridor e o baldas. Vão ter exactamente a mesma sorte.

Voltando ao impacto da tomada de consciência por parte dos portugueses, que outros efeitos poderá ter para além da emigração e do consumo?

Comportamentos desviantes de toda a espécie, de fuga ao fisco, incumprimento de obrigações. Se o Estado deve, porque é que eu não posso dever?

Deixar de cumprir obrigações.

É o exemplo que recebo, vou fazer igual. Imagino que a economia paralela vá crescendo, apesar da máquina fiscal estar cada vez mais apertada. Conheço instituições públicas que respeitam a orientação do ministro de congelar recrutamentos. Mas essas instituições oferecem bolsas de estudo e criam estágios e as pessoas, que vão trabalhar como qualquer funcionário público, em vez de receber um vencimento, recebem como recibo verde ou como bolsa de estudo. Se o exemplo que recebo dessa instituição tão nobre é esse, por que é que não vou fazer o mesmo?

E a violência, também pode aumentar?

Isso é sempre.

Mas não está à espera do caos. Qual a sua opinião sobre o aparente aumento dos casos de bullying?

Sobre o bullying, não sei o suficiente. Só me lembro do que era a escola no meu tempo.

Tinha sorte e um 1,90m.

Ai, mas também levei muito. Quando tinha 12 anos e me apareciam os matulões de 17 ou 18, por muito alto, forte e gordo que fosse não dava. Há um fenómeno de moda e uma espécie de ideologia infantil. Penso que é moda pensar que a vida é uma coisa harmoniosa, doce de manhã à noite, que não há conflitos, que não há riscos, que não há gestos mais violentos. Não sou afavorável às bofetadas, não dou bofetadas a ninguém, mas sei que isso faz parte da vida.

Já lá vão os tempos das reguadas.

Reguadas como eu apanhei, acho errado. Acho que a punição escolar, ainda por cima em nome do Estado, como era, não deve ser física. Deve ser através dos exames, chumbos, ter que repetir o ano, etc. Tinha um colega que só anos depois se descobriu que sofria de dislexia, dava imensos erros e o professor batia-lhe. Dava uma reguada por cada três erros. Acho isso inadmissível. Ensinar não é isso. Agora, na vida em geral, exigir-se que crianças e adolescentes, entre elas, tenham uma espécie de comportamento amorfo? Há um famoso livro do H. G. Wells, que fala de uma sociedade do futuro, no ano 3000 ou 4000. Ele vai numa máquina de explorar o tempo e vai até ao ano 4000, chega a um sitio onde é tudo verde e é habitado por uma população que anda pelo meio dos prados verdes, aos saltinhos, todos felizes. Mas depois descobre-se que debaixo da terra estão os que trabalham para alimentar os de cima. Não é com a ideia de sociedade harmoniosa que se deve modelar a escola de hoje. Nas escolas são dados muitos maus exemplos.

Quem é que dá os maus exemplos?

A legislação. O estatuto do estudante, por exemplo, que é um absurdo total. Um professor que quer castigar um aluno, do género mandá-lo para o recreio ou pô-lo a escrever qualquer coisa na aula?

Tem horas de burocracia pela frente.

Semanas. O aluno tem que ser ouvido como se estivesse no tribunal, com julgamento, advogado de defesa, tem que ouvir o conselho de turma, tem que ouvir 12 pessoas. Se existe bullying, que não sei se existe em níveis preocupantes, creio que uma das razões é ter-se desviado para a burocracia, para o mito da sociedade e da escola harmónica. O que é uma escola? É um sítio onde as meninas vão a correr e os cavalos a saltar e coisas desse género. Isso é uma estupidez total. É um sítio onde se aprende por prazer? Isso é uma total estupidez. Aprender não é lúdico, é trabalho, é esforço. Se cria uma escola deste género não tenho qualquer tipo de dúvida de que pode resultar em violência. Se sei que um professor está destituído de poder, tiro-lhe o telemóvel.

Deixando de lado o bullying que é um assunto que prefere estudar com mais profundidade?

E do qual não aceito os termos em que se fala actualmente. Fui suspenso duas vezes no liceu por causa de um gesto que fiz a um professor, um perto da violência, outro perto do brejeiro, e fui dois dias para casa. Talvez seja diferente de hoje. O que fiz só eu e o professor soubemos, e o meu pai quando foi chamado. É possível que haja diferenças, mas não aceito os termos em que se fala agora desta situação.

Tendo em conta o desemprego, as dificuldades financeiras, os sacrifícios que vão ser exigidos, não antevê uma crise social, uma revolta?

Não me parece mas não tenho a certeza. Há uma velha discussão nas ciências socias. Os pensadores mais perto do marxismo afirmam que quanto maiores as dificuldades, a exploração, maior a capacidade de revolta. Poucas vezes se verificou esta situação na história. Os estudiosos mais próximos de outros pensadores, do século XIX ou XX, sugerem o contrário. Quem faz as revoluções é a classe média que, depois de vários anos a viver muito bem, com muitas expectativas e uma crescente satisfação das suas necessidades, de repente começa a correr riscos, sente-se ameaçada. Temos os dois fenómenos. É possível que o aperto social, económico e político crie tendências desorganizadas para a revolta, o que não quer dizer necessariamente violência. A situação mais possível é que a classe média, que viveu 20 ou 30 anos bem, sinta as coisas muito inseguras, entre perder o emprego, a casa, o automóvel, o colégio privado para os filhos ou para os netos. Perderem estes esses privilégio pode ser mais grave socialmente. Quem está no fundo tem que pensar na sobrevivência. O que poderá acontecer é difícil de prever. Em Portugal, por falta de experiência democrática, temos muito pouco hábito institucional para canalizar energias de reivindicação.

Ficamos pela queixa?

Mas, por exemplo, a maneira como se fazem discussões políticas no Parlamento é de uma total selvajaria. Os gritos e os berros dos deputados, o argumento mais doce é mentiroso, desonesto, os olhos esbugalhados, as veias a inchar no pescoço. O Muhammad Ali chamava o adversário de todos os nomes, metia-se com a mãe dele, com a mulher, com a filha. Até que um dia lhe perguntaram: ?Por que razão insulta os adversários dessa maneira??. E ele, com o ar mais inocente do mundo responde: ?Mas acha que posso estar durante 15 rounds a bater em alguém sem o odiar? Primeiro preciso de o odiar e só depois consigo bater-lhe.? Os deputados e os governantes em Portugal parece que têm que se odiar e isso tem um terrível efeito. Colocam o debate político e social nesses termos. Como é que os trabalhadores e os sindicatos falam dos empresários e vice-versa? É num tom parecido. Pode opor-se a alguém sem berrar. Isto quer dizer que as vias institucionais para gerir conflitos não estão rodadas. Há sempre um sindicato com um pé fora, ou um patrão com um pé dentro e outro fora. Se receio alguma coisa em Portugal, é a falta de canais institucionais oleados onde seja possível gerir conflitos, chegar algumas vezes a acordo. Isso acontece em países com outro tipo de experiências que não temos. Outro dos efeitos é que o debate institucional, como não tem canais para se processar, resvale para a sociedade, para a greve, para o conflito. Isso não é uma boa maneira de resolver as coisas.

A culpa é só da juventude da democracia? Em Espanha, a democracia só tem menos um ano?

A culpa nunca é de ninguém, as coisas sociais são o que são. Em relação a Espanha, o mais importante é o facto de não ter feito nem guerra colonial, nem Revolução. Portugal perdeu tempo com a guerra colonial, com os últimos anos de ditadura, com a Revolução e com a contra-revolução. Isto é um puro palpite, mas acredito que em relação a Espanha perdemos entre 20 a 30 anos. Cheguei a escrever que a Revolução em Portugal e a contra-revolução não deixaram sequelas. Acho que me enganei. Há um abismo entre patronato e sindicalismo que não existe dentro de algumas empresas. Esta dificuldade de discutir racionalmente creio que é uma sequela aberta e que vem desses 20 ou 30 anos que perdemos. Apetece-me dizer que foram inúteis, mas na História não há inutilidade, as coisas foram o que foram.

Outra consequência dos momentos que vivemos pode ser mais medo?

Acho que sim. Se há uma escala, onde cabe o receio, o medo, o terror, acho que hoje já se vive muito com receio de perder o emprego, a casa, de perder um amigo, de ser incomodado, de se despedir?

Do que se diz?

Sim, sim, sim, sim! E sinto que as pessoas dizem mesmo que é preciso prudência no que se diz, no que se faz, porque nunca se sabe quais poderão ser as represálias.
Só agora é que estamos a viver isso ou tudo não passa das velhas regras entre classes?
Há duas ou três décadas havia menos receio, havia mais esperança. Não no Antigo Regime, aí havia mesmo medo à séria.

Consegue apontar mais ou menos quando notou um aumento desse receio?

Dos anos 90 para os anos 2000. É por aí que se situa. Os portugueses vivem muito obcecados com a comparação, com o serem os piores, os mais baixos, os mais pobres da Europa.

Antes, a Grécia estava pior.

Agora já não temos a Grécia. Esperemos é não seguir o exemplo da Grécia. Verdadeiramente mentiroso foi o estado grego.

As premanentes comparações não revelam que somos invejosos e mesquinhos?

Penso muito pouco em características comportamentais de um povo. Diz-me ?os portugueses são resignados?, encontro-lhe já meia dúzia de portugueses que não são. ?Os portugueses são tristes?, uns são alegríssimos. Aqui nesta sala não sei se está alguém triste?! Estou a olhar para as caras. [risos] Portanto, não creio que existam características inatas de um povo. Há reacções comportamentais circunstanciais conforme a História, conforme a situação que se vive. Quando ganhámos a liberdade em 74/75, por exemplo, Portugal estava satisfeito. A maior parte das pessoas estava contente com a liberdade. Depois em 75 quando houve receio de que isto fosse para outro tipo de ditadura a maior parte das pessoas estava inquieta, estava preocupada. Mas é circunstancial.

Diz que os portugueses querem o melhor, mas a verdade é que depois ficam pelo caminho.

Porque somos pobres, não temos recursos.

É só isso?

É um conjunto tão grande de coisas. Portugal, durante muitos anos, sofreu muitas consequências de periferia, numa altura em que a localização geográfica era muito importante e Portugal estava no canto da Europa. Uns anos antes facilitou aos portugueses então irem para o mar, mas não facilitou quando se tratou de estar no meio das vias de circulação europeias, nos caminhos-de-ferro, nas estradas, próximo das grandes cidades europeias. Compare com a Suíça: um país tão pobre quanto Portugal, a Suíça não tem mar?

Pobre em recursos?

Não tem agricultura, tem montanhas, neve, montanhas que nunca mais acabam.

Tem investimentos financeiros.

Antes não tinha. A Suíça está no centro da Europa. A Suíça é o umbigo da Europa, está no centro da Europa. Passa-se sempre pela Suíça. E não é só o passar, os suíços estão em todo o sítio. Ainda hoje há dezenas de escritores, de autores, de cineastas, músicos, maestros, que são suíços e que toda a gente julga serem franceses, italianos ou alemães porque têm os nomes dos respectivos cantões, das respectivas línguas que se falam na Suíça. E a Suíça por estar muito bem localizada, e por outras razoes, inclusivamente religiosas, beneficiou. Se a reforma teve coisas boas, Portugal não beneficiou nada. Portugal nunca teve pluralismo religioso a não ser agora, que começa a ter. Mas nunca teve e nunca acho bem tudo o que é anti-plural. Portugal teve muito pouco pluralismo durante anos. Um regime politico, um partido, uma só língua, uma só cor de pele, uma só maneira de viver, de adorar, de amar Deus, um só Deus, uma só Igreja. Quando começa a haver muitas igrejas, muitas crenças, muitas cores de pele, muito feitio de cabelo, as sociedades são mais dinâmicas, mais interessantes, mais vivas, mais confrontacionais. Portugal só agora é que está a começar a ter disso, só agora, há 20 ou 30 anos, é que sai à rua e ouve falar línguas, vê brancos, pretos, amarelos, castanhos, o que é bom para a sociedade. Mais uma vez: será que é tudo inveja? Não, acho que é o fruto destas circunstâncias todas.

Não temos mais por incapacidade?

Porque somos pobres, não temos experiência democrática, não estamos bem colocados geograficamente no mundo, porque temos um péssimo clima. Só pensa que Portugal tem um bom clima quem cá vem de férias para a praia. Quem faz agricultura, sabe que temos um péssimo clima, péssimo. Porque não neva onde devia nevar ? a neve conserva as terras, a chuva estraga as terras ? e nós temos chuva e não temos neve. Temos muito maus terrenos, só em certos sítios é que são bons, o resto não presta para nada. Estivemos 200 anos a fazer cereal onde não se devia. Não temos boas condições na agricultura, a não ser para a floresta. Devíamos gastar milhões por ano com o desenvolvimento florestal, com o tratamento das doenças da floresta, do pinheiro, do sobreiro. Não fazemos nada disso, ou quase nada. Devíamos gastar com o mar. Há 30 anos que deixámos de investir no mar ou de gastar com o peixe. Há um único caso em que, em 30 ou 40 anos, Portugal conseguiu vencer em quase todas as frentes, que é o caso do vinho. E curiosamente, no vinho o Estado não meteu o bedelho. Foram os empresários, os técnicos, os enólogos que criaram dezenas de boas empresas, dezenas de bons vinhos que são vendidos no mundo inteiro, que ganham prémios no mundo inteiro. Há 15 dias ?vou dizer isto e parece que vem do além ?, um vinho português teve a classificação 100 em 100, o que é raríssimo. Na história de Portugal houve três casos.

Qual foi esse vinho?

Um vinho do Porto, um Dow?s de 2007. Para chegar lá, para ter 100 pontos nestas classificações, é preciso ser provado permanentemente, ter um vinho absolutamente divinal, é um vinho dos deuses. E se você olhar para o vinho todo português, ainda há maus vinhos, mas o sector, no conjunto, soube transformar-se, modernizar-se, soube vender. Os portugueses vendem muito mal, vendem muito mal, muito mal.

Não sabem?

Viveram muitos anos com o proteccionismo, com alfândegas e com protecção do Estado. Havia o pano pó preto, que é dos piores têxteis do mundo, pintavam assim umas cores que deslavavam e que caíam, mas como era para África e os africanos não podiam comprar noutro sítio, era pano pó preto. E os portugueses andaram décadas e décadas a fazer pano pó preto.

O Estado continua a ter uma importância excessiva na nossa vida, na vida das empresas?

A primeira obrigação de um Estado é criar regras para deixar as pessoas viver. Cria regras e depois retira-se.

Mas as pessoas dependem do Estado para uma série de coisas.

Mas não devia ser assim. O Estado devia deixar crescer, devia deixar ter ideias

O mesmo se passa com as empresas.

Há muitas que não e que vivem mal, porque há a concorrência desleal , daquelas que estão encostadas ao Estado, daquelas a quem o Estado faz encomendas e daquelas a quem o Estado dá preferência, dá benefícios. Aquela coisa da empresa num minuto, isso não é verdade. Na realidade, se quer fazer um investimento importante em qualquer sítio, espera vários meses?

A não ser que fale com o Estado?

Que fale com o sr. Secretário de Estado?

Até já os empresários vivem com medo, já não são só os trabalhadores?

Muito, muito. Os que estão encostados ao Estado estão com medo que o Estado se desencoste deles e, portanto, mantêm-se ali na dependência. E há os que não estão encostados ao Estado e que têm medo que as regras do Estado lhes tramem a vida.

Como é que se consegue viver assim?

Olhe, vive-se mal.

Olhando para a Europa, são raros os governos de maioria absoluta. Os políticos são egoístas, quererem o poder só para si?

São, não querem partilhar. È das raras coisas que sou, não quero dizer dogmático, mas fanático. É pelo governo maioria. Quero um governo estável, que tenha a maioria no parlamento, que dure uma legislatura e que tenha a maioria do eleitorado. Pode ser uma maioria de um partido, dois partidos, não me interessa nada.

Mesmo com Sócrates como primeiro-ministro?

Mesmo com Sócrates. Critico Sócrates por no dia seguinte à sua eleição não ter feito imediatamente tudo o que era necessário para criar um governo de maioria, à esquerda ou à direita, a escolha seria dele. Era a primeira coisa a fazer.

Mas é tão crítico em relação a José Sócrates. Há dois anos escrevia que tinha dúvidas sobre se ele era fascista. Já tem resposta?

Acho que nunca vou responder a isso, é uma pergunta retórica. Se é não sei e dizia é-me indiferente. Dizer que é fascista toda e qualquer atitude autoritária é ridículo. Há muita gente que pensa bem e que diz que em Portugal não houve fascismo, que houve uma ditadura ou um regime autoritário do Estado.Isso são classificações que se utilizam e pronto. Fascismo houve em Itália, nazismo houve na Alemanha. Em Portugal não foi fascismo nem nazismo. Foi mau? Foi péssimo, eu fugi. Não revi o meu pensamento em relação ao Antigo Regime.

Diz sobre o primeiro-ministro que ele não suporta a independência dos outros, que é uma ameaça contra a independência, autonomia, liberdade. Consegue viver com ele como primeiro-ministro?

Não confundo os meus gostos pessoais com as soluções políticas, nem com a competência ou com a eficácia. Há muitos escritores dos quais não mas sei que são grandes escritores. O mesmo se passa com alguns músicos. Não gosto da maior parte da música contemporânea dita erudita, a maior parte não gosto. Sei que Schoenberg e Luciano Berio são grandes músicos, reputadamente reconhecidos por quem sabe e eu abomino aquilo, mas tenho de reconhecer que são grandes compositores e músicos reconhecidos. Daí até dizer que são uns bananas ou uns patetas e não quero que eles existam. Na política é a mesma coisa. Há muitos políticos que eu não gosto, mas reconheço o talento, a competência e eficácia.

Pode não gostar de Sócrates mas achar que ele é um bom primeiro-ministro. É isso?

Não, não, de todo. Posso não gostar do Sócrates ou seja de quem for e considerar que se ganha as eleições a sua obrigação é formar um governo de maioria Prefiro um mau governo de maioria a não ter maioria nenhuma.

Não prefere um bom primeiro-ministro a um mau primeiro-ministro?

Sim, também prefiro ser rico, ter saúde ? Não quero ter um primeiro-ministro minoritário. Prefiro ter um mau primeiro-ministro maioritário.

Este é bom ou mau?

Tem dias e tem momentos. Ele tem eficácia política, não tenho dúvidas sobre isso. Quem ganha uma maioria absoluta e quem ganha a segunda eleição, ainda que com minoria, depois de ter tido tão maus resultados numa legislatura de quatro anos, este homem tem eficácia política.

Esta segunda vitória não foi também por não haver alternativa?

Isso ajuda. O facto de não haver alternativa também é produto da situação de quem está no poder. O facto de meu adversário ser mau, de serem tantos, ou intriguistas, como foi o caso, também é resultado dos meus talentos técnicos, não de qualidades humanas, não falo dessas coisas.

Quando diz que ele não suporta a independência dos outros, é porque sentiu isso na pele? Alguma vez Sócrates lhe telefonou a pressioná-lo ou a criticá-lo?

Não, jamais. Eu tive dois encontros com o primeiro-ministro, ambos a meu pedido. E fui excepcionalmente bem recebido. Fui-lhe apresentar a Fundação e seis meses depois fui-lhe apresentar a Pordata. Ele recebeu-me muito bem foi muito cordial.

Acha que por perder a maioria Sócrates se tornou mais dialogante?

Se quer saber, é um belo exemplo como o comportamento pessoal dele, não é amigo, é institucional, não tem nada a ver com o comportamento político. Não me posso queixar das coisas que escrevi sobre ele: áspero irritadiço, colérico, comigo não o foi. As duas coisas existem, não estou a negar uma com a outra. Não altero nada do que escrevi sobre o primeiro-ministro.

Segundo escreveu, Sócrates não é capaz de suportar a independência dos outros, é uma grave ameaça à autonomia dos outros.

É uma avaliação política.

Mas esses comportamentos, a serem verdade, podem ter efeitos graves na sociedade. Os cidadãos livres são importantes para a democracia.

Comportamentos desses que que mencionei podem ter muitos maus efeitos nos comportamentos sociais. A começar pela transparência, pelo respeito pela independência dos outros. Nas sucessivas crises e casos que ilustram o curriculo do primeiro-ministro nos últimos anos, acho que não se defendeu a tempo e quando se defendeu bem foi tarde demais, criou uma sensação de dúvida e desconforto.

Qual a avaliação que faz?

Não tenho nenhuma certeza sobre nada que diga respeito a estes cinco ou seis casos que envolvem o primeiro-ministro.

Mas tem dúvidas?

Como toda a gente. Tenho dúvidas sobre ele, certo tipo de jornalismo, os magistrados, a justiça, procuradores e advogados sobre os interesses económicos.

Mas Sócrates é o primeiro-ministro.

Sim, mas as dúvidas existem sobre tudo isto. O primeiro-ministro não foi bem tratado por uma parte do sistema judiciário e por uma parte do sistema de informação. Não estou a dizer que a culpa de um isenta a do outro. Ele não se defendeu bem, defendeu-se tarde, não esclareceu, deixou subsistir a dúvida, foi mal tratado pelos sistemas que mencionei e isto tudo coexiste.

Leu as escutas que foram transcritas?

Li um bocado as que foram citadas pela comunicação social como toda a gente.

O que sentiu?

Revolta por existirem escutas. Há 20 anos que defendo a proibição das escutas.

Não ajudam na investigação?

Em 1991 era deputado e apresentei um projecto de lei no parlamento de proibição absoluta de realização escutas telefónicas.

Não acha que pode ser um instrumento para ajudar a fazer a prova contra crimes de corrupção que são tão difíceis de provar?

Façam prova de outra maneira.

As escutas potenciam abusos?

Sim e tornam pessoas dependentes umas das outras, conduz sempre a escutas ilegítimas ou ilegais, induz o tráfico de informação das escutas. Se não houver escutas não se pode falar nisso.

Em relação à oposição, o PSD elegeu um novo líder, Pedro Passos Coelho. O PSD pode ganhar uma nova dinâmica, constituir-se como alternativa de governo?

Sou muito laico nessas coisas e mesmo só depois de ver e saber. Até há data, atribuo um mérito ao Pedro Passos Coelho, um pouco paralelo ao que atribuo a Sócrates. Ter conseguido ser eleito com uma grande maioria no partido,num partido que é habitado por lacraus, por barões, seja o que for, um termo à vossa escolha. E de repente, alguém consegue uma maioria de 60 e tal por cento dentro do próprio partido. Poderão vir dizer que é uma maioria preclitante, não quero saber nada disso, quero saber que foi feito algo que permite, em teoria, organizar um partido politicamente. Faz-me tanta falta um partido de oposição eficiente, bem organizado, com representatividade, como um governo com maioria absoluta. Um bom partido de oposição influencia o governo, como o governo influencia a oposição. É este jogo que eu quero ver jogado. Não sei se o Pedro Passos Coelho vai conseguir isto.

Mas gostava de experimentar Passos Coelho enquanto primeiro-ministro?

Se ele merecer. Já não sou dado a simpatias. Essas são para a música, para a literatura, fotografia, pintura. Não tenho simpatias políticas nenhumas. Quero resultados, factos, acção.

Não gostava de ter políticos mais ligados à economia real? Ou seja, políticos que não tenham feito carreira só nos partidos.

Nós precisamos de tudo. A política tem regras próprias. É uma disciplina, tal como o karaté, o ténis, a química nuclear. Têm os seus profissionais, a sua linguagem, a sua deontologia. Há quem não goste de deontologia política porque se diz que na política os fins justificam os meios, isto foi dito por alguém, repetido outra vezes, mas isto não é verdade. Há muita política ao longo dos séculos que não foi feita dessa maneira. Para se fazer uma boa política é preciso ter alguns instrumentos dessa disciplina. Não se faz química ou física com luvas de boxe. A política tem regras próprias e comportamentos próprios. Não gosto da ideia de que os técnicos fazem boa politica, da ideia do governo dos técnicos e das competências. Isso é um mito, que tem também muitas décadas, de que ?devíamos varrer com os políticos todos e entregar o governo a bons técnicos de finanças e engenharia.? Essas pessoas não sabem fazer política e são desastres absolutos. Gosto é de uma boa mistura entre políticos. que sabem da política, conhecem os seus instrumentos, como se trata o partido, o eleitorado, a Constituição, os adversários, como se trata com os patrões e os sindicatos, mas que também houvesse gente da ciência, da técnica e da economia real. Um governo apenas com aparelhos do partido também é péssimo.

Mas o aparelho partidário tem dominado.

Não gosto muito de ver pessoas que a única coisa que fizeram jamais na vida foi seguir o chefe partidário. Começaram aos 15 anos na sub-juventude, aos 17 eram da juventude, ficaram na juventude até aos 25, 30 ou 40 anos, nunca trabalharam, nunca fizeram nada. Vocês dirão que pelo menos em dois partidos, no PS e no PSD, há cada vez mais pessoas cuja vida se passou essencialmente?

Também é isso que o mantém expectante em relação a Passos Coelho?

É ver a acção. Já fez uma coisa boa, ganhou com maioria significativa, política, o partido.
Houve alguma coisa que ele tenha dito que tenha retido?silencio)
[silêncio]

Já deu para perceber que não.

Não, houve qualquer coisa, mas não me lembro. Será que ele disse que queria privatizar a CGD?

Já disse mas voltou atrás.

Também não sou favorável a isso, já é um ponto.

Porque é que não é favorável à privatização da CGD?

Se se fizer isso será para engordar desmedidamente um grupo económico, é para a entregar ao grupo Espírito Santo, ou ao BCP, ao Santander. Acho que seria negativo para Portugal que um grupo económico ficasse tão poderoso. Os dois ou três maiores já são desmedidamente grandes em relação ao resto da economia.

Não considera relevante o Estado ter o seu braço financeiro?

Acessoriamente. Imagino que possa ser interessante para um governo ter um para fazer certo tipo de políticas, desde que seja às claras e que seja impedido de fazer certas coisas.

Para interferir na vida de empresas com accionistas privados?

Acho errado. Que o Estado utilize a Caixa para emprestar dinheiro a um ou dois ou três quatro senhores que vão comprar outros bancos, comprar-se uns aos outros, acho mal.

É isso que acontece neste momento?

Tanto quanto se sabe, terá acontecido isso nos últimos dois ou três anos. Não vou falar do assunto, não me quero meter uma vez mais com pessoas, mas estamos a pensar certamente nos mesmos.

Em relação às Presidenciais, Cavaco Silva, Manuel Alegre ou Fernando Nobre?

Não me pronuncio sobre Presidenciais há 20 anos e não o farei.

Porquê?

Quero preservar a minha independência completa e absoluta.

Esta é uma matéria assim tão pessoal?

Há 20 anos escolhi sair da política activa pela minha própria vontade. Gosto de me exprimir sobre a politica quando me apetecer e só quando me apetecer. Não estou a dizer que não me exprimirei nunca, jamais, no futuro, sobre as eleições presidenciais ou legislativas. Se disser amanhã que quero que ganhe o PS ou PSD, sou totalmente livre de o fazer. Não digo mais nada por rotina, tradição ou inércia. Além do mais, os apoios às presidenciais e às legislativas em Portugal têm o condão de fixar politicamente uma pessoa. Você tem uma opinião positiva sobre a maneira como um presidente ou outro agiu durante um certo tempo, se diz isso e se não o faz com cautela, automaticamente passa a ser um aficionado e ao ser aficionado está contra o outro. O que quer que você hoje diga sobre Cavaco Silva, Manuel Alegre, Fernando Nobre, fica imediatamente marcado, arrumado, vai fazer parte das comissões de honra, mandatários, e durante cinco, quinze ou 20 anos da sua vida, passa a ser um dependente daquele grupo politico. Um homem livre só declara apoios ou simpatias quando lhe apetecer, se lhe apetecer, incluindo não apoiar ninguém. Há-de reparar que não apoio ninguém há muitos anos. Não só não digo em quem votei, como se votei. Terá de ir à Junta de Freguesia ver os cadernos eleitorais.

Não diz a ninguém?

Há 20 anos. O que não quer dizer que não venha a dizer um dia?

Mas a ninguém? Nem em casa?

Disse a imensas pessoas, talvez duas.

Mas isso não o faz sentir um bocadinho menos livre?

Não, porque se me apetecer digo. Se quero ser livre não vou passar uma tarde a uma cela. Também posso ter a liberdade de ir para uma cela, mas se vou para uma cela enquanto estou na cela, estou na cela. A minha liberdade é não ir para a cela. Em Portugal a política é uma forma de dependência e fazer política é aceitar ser dependente. E por isso que é difícil ser-se cidadão. O verdadeiro cidadão não tem dependências, tem liberdade de escolha.

Então temos pouco cidadãos?

Muito poucos, voltamos sempre ao mesmo. Veja o que se faz no Parlamento. Como é possível que 250 criaturas sigam sempre quatro chefes partidários? E que no dia em que uma criatura decide pensar de outra maneira lhe caiam todos em cima, os jornais, as televisões, as rádios. Desrespeitou, faltou.

Isso aconteceu com Manuel Alegre

Aconteceu com Manuel alegre, aconteceu comigo, aconteceu com o Pacheco Pereira. Em 20 ou 30 anos de democracia houve meia dúzia de casos de voto ao contrário dos chefes partidários, para as coisas mais fúteis. Aceito que um deputado deva respeito ao seu partido por uma ou duas coisas, se não também não era deputado desse partido: a moção de confiança ao governo, a moção de censura ao governo e o orçamento.

Tudo o resto poderia ter liberdade de voto?

Não poderia, deveria. A regra de funcionamento do nosso Parlamento para ser um parlPmento livre e decente devia ser a da liberdade de voto. Depois, dentro de cada partido haveria contratos. O meu partido quer-te como deputado, muito bem, dou-te tudo o que quiseres mas exijo o teu voto na moção de confiança, censura e Orçamento, porque põe em causa os governos.

Mas é preciso coragem para exercer essa liberdade.

Disse uma frase terrível. Quando no meu país é preciso coragem para ser independente? Se é verdade, é terrível.

Acha que é verdade ou não?

Infelizmente, às vezes é preciso coragem para se ser independente e livre.

Podia haver liberdade e não haver disciplina de voto, mas o que é certo é que existem forças à volta de um grupo parlamentar que condicionariam os deputados.

Isso é o que existe.

A liberdade de voto dos deputados, mesmo com esta solução que apresenta, até que ponto seria real?

Ai é que está. É que a liberdade de voto exige a eleição nominal. A liberdade individual do deputado também exige a liberdade de eleição. Se pudesse ser eleito ou na lista de um partido mas em meu nome, ou independente. Há 30 anos que defendo as candidaturas independentes e individuais, e tudo em Portugal foi feito contra isso. Um partido não pode ter um nome religioso, não pode ser de um só distrito, tem de cobrir não sei quantos distritos, não pode ser pequenino, não pode ser regional. Tem de se estar inscrito no partido ou nas listas como independente, o que é outra coisa horrenda. Está tudo feito e organizado para impedir a independência e a liberdade. Quando digo que sou favorável a candidaturas independentes, devo dizer que o resultado é desastroso. Um Parlamento só com deputados independentes é totalmente imprevisível. Não há racionalidade partidária, e os governos ficam lá um quarto de hora.

Caminharíamos para a anarquia.

Vai-se para o Parlamento como se vai para o Bairro Alto. Ora bem, eu quero partidos políticos, que são uma maneira de organizar o pensamento e a acção, de ter programas, estratégias, racionalidade. Simplesmente não é obrigatório que um partido seja feito com servos.
É o que acha que existe neste momento nos partidos? Os deputados são servos?
É, não tenho qualquer dúvida. Há pessoas que não sabem muito da organização política dos outros países e de vez em quando olham para a televisão e acontece ver o que se passa no parlamento inglês ou no americano. Depois perguntam: ? oh professor, o que é que se passa??. Então as leis do Obama são aprovadas por 19 republicanos e 43 democratas, como é que é possível? Então o Tony Blair, dois terços do seu partido votou contra a invasão do Iraque e foram os Tories, a oposição, que lhe deram a oposição que ele precisava. Quando a Margaret Tachter tentou reinstaurar a pena de morte, foram os Tauries e os Lords, velhos e conservadores, mas cheios de liberdade, que disseram ?senhora, não pise esse risco?. São exemplos do que é a liberdade individual, do que é a liberdade do deputado, da pessoa eleita, Põe o seu nome a dizer eu sou responsável pelo o que faço. Já ouvi dezenas de deputados a dizerem ?epá, tive de votar por causa do partido!?. Fico furioso, como é que é possível? Eles são servos, gostam de ser servos, sabem que são servos, e aceitam ser servos. Com estes exemplos, como é que quer ter cidadãos livres e independentes? E cidadãos que não têm medo e não têm receio?

É pena não podermos abordar as presidenciais, falar sobre Cavaco e Alegre?

Trata-se da coisa mais simples: ainda não decidi tomar partido por um candidato e ainda não decidi sequer se quero tomar partido.

Mas isso impede-o de falar sobre Cavaco?

Acho que exerceu bem o primeiro mandato. Está quase a acabar.

E o caso das escutas?

Foi gerido com imperícia dele, da Presidência.

Mas não manchou?

Isso vê-se nas sondagens: foi punido por algum desconforto da população.

Cavaco Silva e Manuel Alegre são muito diferentes.

Não me exprimo sobre isso. O que quer que lhe diga sobre Cavaco, Alegre ou Fernando Nobre nesta altura, que não seja factual, terá sempre uma interpretação política, de simpatia ou antipatia, que eu não faço porque ainda não tomei uma decisão. Não estou a fugir?

A candidatura de Fernando Nobre tem pernas para andar ou é um sintoma de mal-estar?

Era o que faltava! Candidaturas venham, muitas e boas, venham todas. O que disse tem um perigo quase filosófico, ou seja, se um cidadão decide candidatar-se isso provoca mal-estar dentro do regime. Não é verdade.

Mas o discurso, a justificação da candidatura é quase um grito de revolta?

Gostaria que nestas presidenciais houvesse uma panóplia suficiente de escolhas possíveis, de forças e energias disponíveis, de bons programas. Sei que não se pode pedir 30 bons, mas se houver quatro bons, isso aumenta a liberdade de escolha dos cidadãos, que é o hoje o meu critério em tudo, a última linha da minha preocupação. Portanto, se houver três ou quatro candidaturas que ultrapassam ou atravessam os partidos, melhor ainda. Mas também quero partidos que se identificam com os candidatos. Quero as duas coisas.

Outro fenómeno que tem sido amplamente noticiado é o da pedofilia, com repercussões graves na Igreja. O secretário do Vaticano disse inclusive que a prática da pedofilia estava associada à homossexualidade e não ao celibato. Sempre houve pedofilia, como sempre houve bullying, e o que mudou foi apenas ao nível mediático?

Sei pouco sobre o assunto, nunca estudei, portanto, não tenho uma opinião muito fundamentada. Mas pela minha experiência de vida em vários sítios do mundo e do país, das coisas que li, vi e ouvi, fazem-me dizer que sempre houve. Mais ou menos, dependendo das circunstâncias, dos lugares, do contexto, mas sempre houve fenómenos de pedofilia, homossexualidade, iniciação sexual ? envolvendo ou não crianças adolescentes e adultos. E sempre houve em certo tipo de instituições: os internatos, seminários, instituições militares ou paramilitares, com professores ou professoras. Em certo sentido, o que hoje se diz não altera o que sei ou penso há muitos anos. É habitual essa prática de iniciação sexual, pedofilia, homossexualidade ou sexo entre adultos e adolescentes neste tipo de instituições.

Porquê?

Porque são universos fechados.

E o homem é um animal?

Não estou a falar só de pedofilia. Simplesmente acontece. Não vou fazer nenhum discurso histórico sobre as origens da homossexualidade, até porque não sei. Acho que há actualmente um fenómeno de hipertrofia mediático e que muitos sectores da Igreja portaram-se muito mal tentando encobrir. Na Irlanda, Inglaterra, Alemanha, EUA, se calhar em Portugal, cá as coisas sabem-se sempre tarde, quem sabe se daqui a dois ou três anos se sabe. Mas, por exemplo, o que terá acontecido na Casa Pia tem pontos de contacto com isto, ainda que não seja uma instituição religiosa. Mas tem uma concentração de jovens, adolescentes e adultos e promiscuidade entre eles e entre professores e alunos, etc. Há literatura inglesa com 70 ou 80 anos que fala disso nas escolas, até nas forças armadas. Há anos que se fala disto. O que parece ser novo é a dimensão do fenómeno e o envolvimento excessivo dos sacerdotes nisto. E da organização disto, já que parece ter 20 ou 30 anos. É muito desconfortável a tentativa de encobrimento por parte da Igreja. Foi com satisfação que ouvi bispos, portugueses e não só, dizerem publicamente: o que é crime é crime e tem de ser julgado publicamente, além de ser tratado em tribunais canónicos. E também é novo o interesse que o universo da informação dedica a isto ? não era caso há tempos. Por que o fez a imprensa? Porque houve provas, acusações. E descobriu-se, há cinco ou dez anos, que era rentável, comercialmente ou até por mediatismo e protagonismo, começou a ser interessante denunciar as coisas que se fizeram e sofreram no passado. Faz-me lembrar há 30 anos que todos os agentes da CIA fizeram memórias e agora acabou, já quase ninguém conta e põe tudo em causa. E agora é o sexo. Estará isto tudo relacionado com esse crescendo moralista americano? Voltemos ao Clinton. De repente, todas as semanas havia uma que tinha ido para a cama com o Clinton. E agora Tiger Woods. O universo do sexo e das aventuras sexuais tem dado muito resultado, portanto, denuncia-se tudo, parece que o fenómeno da Igreja veio atrás. Mas há qualquer coisa mais incómoda quando se fala da Igreja porque a Igreja ou os sacerdotes defendem certos valores?

Mas a Igreja é feita de homens.

Então que casem.

A culpa está no celibato?

Acho que ajuda. Não estou a dar opiniões muito informadas, mas estou convencido que nos últimos três ou quatro anos a tendência para permitir o casamento de sacerdotes ganhou 50 anos. Portanto a muito curto prazo, talvez no nosso tempo de vida, o casamento comece a ser admitido.

Constata que em certas instituições há a tendência para a homossexualidade e a pedofilia. Porquê?

Se eu vivo num universo em que o único líquido que há é vinho tinto e se gosto de beber, vou beber vinho tinto. Ou seja, em universos fechados, em que as crianças estão a crescer, as hormonas fazem das suas e a testosterona começa a aparecer, onde há rapazes e raparigas, mais velhos e mais velhas, desejos e pulsões sexuais de todos, e adultos que já estão a ter experiências ou em vias disso? Junta-se isto tudo em universos fechados, em que aprendem uns com os outros? O que aprendi sobre a vida sexual foi na escola, onde os miúdos reguilas ensinavam uns aos outros. Quando os meus pais acharam que eu já tinha idade para receber certa educação, deu-me vontade de rir porque já sabia tudo ? a minha escola era pública, toda a gente entrava e saía. Em universos fechados desta maneira, por tendência, gosto, prazer, provocação, companhias, porque éa fase da iniciação ou porque não há mais nada, há muita gente que faz muita coisa que não faria cá fora. Por exemplo, nas prisões, diz-se que há muita homossexualidade feminina e masculina, alguma deliberada, desejada e consentida e outra violenta e fechada, porque é o que há. Qualquer desses outros universos permite isso. Vivi em cidades como Vila Real, onde havia colégios de rapazes e raparigas, liceus abertos, escolas técnicas, havia um quartel militar, um seminário. Estava lá tudo e as pessoas conhecem-se e sabem tudo o que lá acontecia.

Não se devia acabar com esses universos fechados?

Não devia haver universos fechados. Por exemplo, andou-se anos e anos a dizer que no exército não se podia misturar homens e mulheres. Nos EUA, agora as casernas são para homens e mulheres. Tudo menos na Marinha, onde não pode haver mulheres. De resto, há em todo o lado e em todos os países. Hás problemas sentimentais no exército, mas também os há em todo o lado, na vida, na universidade, nas empresas, na sociedade em geral. Tive imensa sorte porque o meu liceu era misto desde o primeiro ano, numa altura em que, em Portugal, não havia muitos liceus mistos. Para mim, é mais simpático, agradável, interessante, criativo do que homens de um lado e mulheres no outro. E por que não nos conventos, nos seminários? Ah, porque há o celibato, mas se calhar é esse o caminho. Em Portugal, há casos em que os conventos de rapazes estão em frente aos de raparigas.

Se mandasse, o que daria aos portugueses para os tornar mais felizes?

Só uma coisa? Então, seria a eleição nominal: eu voto na pessoa que quero.

Ajudaria à liberdade que nos falta?

Muito.

Sente-se um homem feliz?

Eu sou simultaneamente feliz e insatisfeito. Só os adolescentes acham que não há contradições na vida. Nunca posso ser inteiramente uma coisa.

E livre?

Tento ser. Nunca se consegue sempre. A minha obsessão quotidiana é a liberdade individual, não depender de ninguém.

Está bem com a sua consciência?

Esforço-me por estar.

Sei que odeia esta frase, era uma provocação. Porque é que respondeu?

É uma frase horrorosa. Os homens mais virtuosos, os criminosos e os maiores pulhas dizem-no. Não sabia que sabia que eu a detestava?