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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

As Procissões em Olhão

Para uma divulgação esclarecida do património cultural local transcreve-se o artigo com o título supra do jornal "O Olhanense" no seu número 1078 do Ano 51, publicado com a data de 1 de Novembro de 2013.



As Procissões em Olhão

 

Olhão sempre se caracterizou por ser uma terra de gente do mar, quer em navegações de cabotagem e comércio, quer em pesca de diversas artes e zonas de mar, umas próximas, outras bem mais longínquas.

A gente do mar, uns mais outros menos, sempre são devotos, fruto das suas andanças e passagens nem sempre fáceis. Daí que as manifestações religiosas fossem sempre bastante concorridas.

 Não é por acaso que ainda nos dias de hoje a capela de devoção ao Senhor dos Aflitos continua a ter mostras diárias dos sentimentos de muitos dos seus habitantes.

Outro tipo de manifestação religiosa, – a procissão -  que também tinha muitos devotos, com gentes do mar a disputar a honra de poderem levar certos andores, pendões e estandartes.

Lembro-me perfeitamente delas, do seu longo percurso e do sermão final antes de recolher de novo à Igreja Matriz.

Estamos a falar dos tempos de sacerdotes que à frente da paróquia marcaram toda uma época como foi o caso do padre Delgado, do cónego Falé, entre outros.

Com o evoluir dos tempos as procissões começaram a deixar de ter participantes em número suficiente, com os párocos a afirmarem que já não havia gente para os andores e a procissão não se fazia ou então teria um curto percurso pela Avenida da República.

Por vezes, em muitos paroquianos, ficava a dúvida se tal se devia apenas às modificações de usos e interesses que a sociedade vai sempre sofrendo com o desenrolar dos tempos ou se seria consequência de ressentimentos a algumas atitudes que no dia a dia por vezes alguns priores assumiam.

Felizmente com a vinda do actual pároco, essa tendência tem vindo a ser invertida, com mais paroquianos a colaborar, pelo que já tivemos ultimamente manifestações desse cariz com trajecto digno, voltando a apresentar-se o cortejo perante a frente da ria.

O trajecto agora considerado não foi o tradicional de muitas décadas o que deixou algumas dúvidas nas fontes conselheiras do padre Manuel.

Sempre foi intenção que o cortejo processional passasse por algumas ruas dos dois bairros mais tradicionais de Olhão, o bairro do Levante e o bairro da Barreta. Nesta última versão apenas o bairro da Barreta foi considerado no percurso tendo sido esquecido o bairro do Levante.

E para que a memória perdure a seguir se descreve o trajecto completo das procissões olhanenses.

Iniciava-se a formação do cortejo na frente da Igreja Matriz, na Praça da Restauração, seguia pela Rua Capitão João Carlos de Mendonça, passando-se ao lado do Compromisso Marítimo e Igreja da Soledade.

Depois de passar frente à farmácia Pacheco, que até há pouco ali teve as suas instalações, inflectia para a direita, entrando na Rua Dr. Miguel Bombarda.

Ao entrar nesta rua a procissão percorre parte do bairro da Barreta, sendo este um dos mais antigos bairros de Olhão.

No final da Rua Dr. Miguel Bombarda a procissão virava à esquerda seguindo pela Rua do Dr. Pádua em direcção à Rua de João de Deus e através da Travessa dos Mercadores desembocava na Rua Teófilo Braga. Continuando por esta até ao Largo Patrão Joaquim Lopes a fim de alcançar a frente da Ria.

Do Largo Patrão Joaquim Lopes, atravessava a Avenida 5 de Outubro, passava entre os mercados chegava a procissão em frente à Ria. No Bate-Estacas os andores eram colocados lado a lado e de frente para a Ria.

Seguia-se a cerimónia da bênção do mar e dos barcos, os quais estavam todos engalanados frente aos mercados e marcavam o seu regozijo após a bênção através dos seus apitos e buzinas.

No prosseguimento do percurso, contornava-se pelo lado sul o mercado da verdura regressando à Avenida 5 de Outubro em direcção à Rua Dr. Francisco Fernandes Lopes, para entrar no bairro do Levante.
 
A Rua Dr. Francisco Fernandes Lopes desemboca, na sua parte norte, na confluência das Ruas de S. José e de João Francisco. Uma vez aqui chegada a procissão tomava pela esquerda entrando na Rua de S. José e voltava depois à direita na Travessa de S. José.

Após percorrer esta travessa a procissão virava à esquerda para agora seguir pela Rua de S. Pedro em direcção a Rua Vasco da Gama, virando então para a direita e uma vez percorrida esta rua, desembocava na Avenida da República, junto ao quiosque ali existente.

De notar que à época quer a Rua de S. Pedro (a parte percorrida pela procissão), quer a Rua Vasco da Gama, eram vias com trânsito e não pedonais como hoje o são.

Ao desembocar na Avenida da República terminava a passagem do cortejo processional pelo bairro do Levante.

Na Avenida da República, seguia-se até ao Jardim João Serra (sentido do trânsito) regressando-se de novo ao início da Avenida junto ao Senhor dos Aflitos.

Nesse local era efectuado o sermão final, recolhendo-se posteriormente à Igreja Matriz através da Rua Capitão João Carlos de Mendonça e Praça da Restauração.

Sempre que as condições climatéricas intervinham em desfavor do cortejo o percurso pela Avenida da República era reduzido e o sermão final abreviado.

Agora que é chegado o final destas manifestações para o presente ano de 2013, e até começar a época do próximo ano, existe tempo para corrigir as actuais manifestações religiosas trazendo-as para a boa tradição que sempre foi o orgulho do povo olhanense.

Façamos votos para que com esta tentativa de regresso a algo que era uma imagem de marca de Olhão, sendo falados os cortejos processionais em comparação com outros de localidades próximas, não só se reavive as intenções religiosas que estes actos envolvem como aumente o interesse por visitar esta linda cidade e conhecer as suas gentes e tradições.

 PM



 

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Ano Novo 2010

Como seria expectável neste nosso actual momento de desenvolvimento educacional e cultural que o País vive, se calhar graças às estatísticas, os índices revelaram-se de novo nas afirmações dos "mensageiros" da Comunicação Social, onde cada vez se torna mais difícil dizer que tanta ignorância e analfabetismo seja apenas um acaso.

No tempo em que não havia cursos superiores a fornecer títulos aos "mensageiros" da Comunicação Social, os verdadeiros profissionais eram conhecidos pelo nome e respeitados pelos seus trabalhos e valor da sua carreira feita pela tarimba profissional acrescida do brio que o próprio imprimia.

Hoje são todos doutores em ...., mas as calinadas na língua pátria são de nível infantil e primário, acompanhadas da quase total ausência de conhecimentos de cultura e complementados por não conseguirem usar o mais elementar bom senso a nível matemático.

Tudo isto vem a propósito, no dia em que se inicia o DÉCIMO ano da PRIMEIRA década do século XXI no TERCEIRO milénio da contagem após Cristo.

É que toda a gente quer fazer a súmula da primeira década do século, como se a mesma já tivesse terminado e que hoje se iniciasse a segunda.

Quando a santa ignorância se manifesta até pela simples contagem!!!!

Estamos de novo com a questão que há dez anos invadiu a sociedade acerca do final do século e milénio.

Vamos lá mais uma vez relembrar:

O SEGUNDO milénio e igualmente o século XX tiveram o seu términus às 2400 horas do dia 31 de Dezembro do ano 2000.

O TERCEIRO milénio e igualmente o século XXI tiveram o seu início às 0000 horas do dia 1 de Janeiro do ano 2001.

A PRIMEIRA década do século XXI teve o seu início às 0000 horas do dia 1 de Janeiro do ano 2001 e irá ter o seu final às 2400 horas do dia 31 de Dezembro de 2010.

A propósito, na língua portuguesa, a palavra DÉCADA significa um período de DEZ ANOS!
(2001,2002,2003,2004,2005,2006,2007,2008,2009,2010)

Que tenhamos um BOM ANO de 2010 e terminemos a PRIMEIRA DÉCADA da melhor forma possível!!!

sábado, 12 de setembro de 2009

11 de Setembro de 2009

Aos onze dias de Setembro de 2009 regressam a solo pátrio os restos mortais de Jorge de Sena, um filho da Nação que outros filhos da Nação se entretiveram a mortificar e que levou a que Jorge de Sena se exilasse.

Nos dias de hoje , se calhar a situação não teria sido muito diversa, pois não creio que pudesse ser bem visto pela nomenklatura actual. E também creio que ele próprio se sentiria numa situação similar à que infelizmente viveu.

Por estes e outros motivos não se pode deixar de citar aqui, um poema de sua autoria, que foi alvo de publicação no blog De Rerum Natura, do qual com a devida vénia o reproduzimos com todas as referências e citações:

O poema tem por título: A PORTUGAL


Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.

Nem é ditosa, porque o não merece.

Nem minha amada, porque é só madrasta.

Nem pátria minha, porque eu não mereço

A pouca sorte de nascido nela.

.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta

quanto esse arroto de passadas glórias.

Amigos meus mais caros tenho nela,

saudosamente nela, mas amigos são

por serem meus amigos, e mais nada.

.

Torpe dejecto de romano império;

babugem de invasões; salsugem porca

de esgoto atlântico; irrisória face

de lama, de cobiça, e de vileza,

de mesquinhez, de fatua ignorância;

terra de escravos, cu pró ar ouvindo

ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;

terra de funcionários e de prostitutas,

devotos todos do milagre, castos

nas horas vagas de doença oculta;

terra de heróis a peso de ouro e sangue,

e santos com balcão de secos e molhados

no fundo da virtude; terra triste

à luz do sol calada, arrebicada, pulha,

cheia de afáveis para os estrangeiros

que deixam moedas e transportam pulgas,

oh pulgas lusitanas, pela Europa;

terra de monumentos em que o povo

assina a merda o seu anonimato;

terra-museu em que se vive ainda,

com porcos pela rua, em casas celtiberas;

terra de poetas tão sentimentais

que o cheiro de um sovaco os põe em transe;

terra de pedras esburgadas, secas

como esses sentimentos de oito séculos

de roubos e patrões, barões ou condes;

ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

.

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,

és mais que cachorra pelo cio,

és peste e fome e guerra e dor de coração.

Eu te pertenço mas seres minha, não.

.

Araraquara, 6/12/1961,do Capítulo "Tempo de Peregrinatio ad loca infecta" (1959-1969) do livro "40 Anos de Servidão", 2ª edição revista, Círculo de Poesia da Moraes Editores, 1982Jorge de Sena

domingo, 30 de agosto de 2009

A Comunicação Social do Século XXI, os Árabes e o Astrolábio

Todos nós sabemos que a Comunicação Social no Século XXI, na sua ânsia de dar novas ao segundo rege-se por regras muito simplificadoras de forma a não se perder muito tempo em dar a notícia tal a pressão de imediatismo em que se vive.

Se adicionarmos a isto uma pressão economicista que leva a que os meios de Comunicação Social funcionem na regra de quanto mais barato melhor, não podemos esperar grande qualidade do serviço, desempenhado pelos menos aptos e preparados mas que por necessidade se sujeitam a todos os dislates de concorrência economicista.

Acresce a tudo isto o nível de preparação à saída dos estudos superiores destes novos profissionais que deixam muito a desejar não tanto por culpa dos últimos ensinamentos para a profissão mas porque a preparação anterior, a dita de base, é tudo menos suficiente!

No entanto, quando nos referimos a um jornal semanário, em que a maioria dos textos são elaborados com alguma antecedência e que não sofrem propriamente das situações do imediatismo, seria de esperar algum cuidado com algumas afirmações que se fazem ao longo do texto.

E até porque hoje dispõem-se de ferramentas tremendas para rapidamente confirmar determinadas presunções.

Vem tudo isto a propósito de um texto vindo a lume no EXPRESSO, semanário cujos créditos firmados levam o leitor a exigir que textos de comentário ou opinião sejam sérios e não escritos ao sabor do momento.

Comentava o texto uma posição acerca das consequências do cumprimento das regras religiosas, no caso o Ramadão, originavam no desempenho de profissionais do desporto e a partir de certo momento partia para uma defesa super-elogiosa da civilização árabe.

E em determinado momento afirmava a articulista que o Ocidente e os Descobrimentos Portugueses deviam aos árabes a "invenção" ou "descoberta" do ASTROLÁBIO.

Se em alguma coisa somos devedores a essa civilização não é pela invenção ou descoberta do astrolábio mas o facto de a ter transmitido desde a civilização que o inventou até aos homens do final da idade média que tiveram que lidar com o assunto.

É que o tal célebre instrumento, que vai ser desenvolvido para o uso na náutica portuguesa, só por um puro acaso foi inicialmente desenvolvido pela Hipátia (ou Hipácia) de Alexandria (em grego: Υπατία), matemática e filósofa neoplatônica, nascida aproximadamente em 370 e assassinada em 415.

Ou seja estamos a falar da célebre Academia de Alexandria o que é relativamente anterior ao que se viria a chamar civilização árabe.

Era de esperar um pouco mais de rigor aos escribas do EXPRESSO especialmente em textos de comentário ou de opinião que não estão tão condicionados pelo tempo.

domingo, 5 de julho de 2009

Matemática: Primos

Pelo interesse que estas pequenas lições de matemática têm, transcreve-se, com a devida vénia, o artigo de Nuno Crato, dado à estampa no jornal "EXPRESSO":



Primos misteriosos

Nuno Crato
9:00 Domingo, 5 de Jul de 2009

Conhecemo-los da escola: dizem-se primos os números inteiros maiores que a unidade e que apenas são divisíveis por si próprios e por 1 - 2, 3, 5 e 7 são primos, enquanto 4, 6 e 8 não o são. Dizem-se primos, não por nenhum parentesco especial mas sim por serem primordiais, por serem os tijolos a partir dos quais se constroem todos os outros números. O teorema fundamental da aritmética diz precisamente que todos os inteiros são decomponíveis de maneira única, aparte a ordem, no produto de primos. O número 12, por exemplo, é o resultado do produto de 2 por 2 e por 3, e não há nenhuma outra colecção de primos capaz de o obter.

Sendo tão elementares que recebem esse curioso nome, pensar-se-ia que os números primos são triviais para os matemáticos, e que estes andariam à procura de segredos em matérias mais complexas. Na realidade, os primos têm-nos intrigado durante séculos e continuam a ser objecto de investigação.

Três séculos antes de Cristo já se sabia da existência de um número infinito de primos. Euclides apresentou nos seus "Elementos" uma demonstração simples e brilhante. Em três linhas mostra que, qualquer que seja a lista de primos que se obtenha, é sempre possível construir um outro: basta fazer o produto de todos os números da lista e somar-lhe 1 - o número que resulta é primo e não estava na lista inicial.

Sabe-se pois que há um número infinito de primos, mas, curiosamente, não se lhes conhece nenhuma fórmula geradora. Distribuem-se aleatoriamente entre os números inteiros, mas fazem-no de forma muito regular. À medida que progredimos na contagem, a sua percentagem entre os inteiros reduz-se de acordo com uma lei simples. Quando procuramos perto do número dez mil, por exemplo, aproximadamente um em cada nove números é primo. Mas quando estamos perto mil milhões, apenas um em cada 21 números o é.

O estudo estatístico dos primos tem-se desenvolvido nas últimas décadas, mercê de meios computacionais cada vez mais eficientes. Sabe-se, por exemplo, que os primeiros dígitos significativos dos primos se distribuem uniformemente. Assim, há aproximadamente tantos primos começados com o dígito 1, como começados com o dígito 2, como 3, e assim sucessivamente até se chegar a 9 (o dígito zero nunca pode ser primeiro significativo).

Há poucos dias, dois matemáticos espanhóis acabaram de descobrir outro facto surpreendente. Se é verdade que os primeiros dígitos significativos dos primos têm todos igual probabilidade, o mesmo não se passa para sequências finitas. Se pegarmos nos primeiros mil primos, por exemplo, encontramos 149 começando com o dígito 1 e apenas 15 começando com o 9. É uma distribuição semelhante à da chamada lei de Benford, que tem sido encontrada em muitos exemplos reais, tais como a contabilidade de empresas, os números de porta de rua e os índices de preços.

Os matemáticos Bartolo Luque e Lucas Lacasa, da Universidade Politécnica de Madrid, num artigo publicado na revista "Proceedings of the Royal Society A" (DOI: 10.1098/rspa.2009.0126), mostram que uma lei de Benford generalizada, que se aproxima da uniforme à medida que o número de casos aumenta, se ajusta bastante bem aos primos conhecidos. É uma lei descoberta por físicos, no decorrer do estudo de processos naturais aleatórios. Reaparece agora no estudo de um tema de matemática pura. O grande mistério do mundo é o da unidade da matemática.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Ano 2009 Inicia com Pérolas da Comunicação Social

Os principais semanários do País, pelo menos os que afirmam ter maior expansão, iniciaram este ano de 2009 da melhor forma oferecendo "pérolas" deliciosas aos seus leitores.

Vejamos o caso do "SOL", na sua revista "TABU", do passado dia 3 de Janeiro.

Num artigo escrito com tempo e calma, por não ser de um tema de última hora, sob o tema Saúde e referido ao HOSPITAL DE S. JOSÉ, sob a pena de GRAÇA ROSENDO e acompanhado de fotos de Helena Garcia, a páginas 45 pode-se ler:
Cinco séculos de História
No início era o "banco das águas"
.......

A obra completa, porém, já não a viu D. João II. Só no reinado do SEU FILHO, D. MANUEL I, é que o "hospital dos pobres", como lhe chamava o povo, abriu as portas.

.......

Bem poderá a douta equipa pedagógica do Ministério da Educação mandar reescrever os manuais de História Pátria, que erroneamente não afirmam tal vínculo filial entre os dois reis da nossa segunda dinastia.

Havia realmente um vínculo de familia entre D. João II e D. Manuel I, mas não era o de pai e filho, mas sim o de CUNHADOS!!!!

D. João II era casado com uma irmã de D. Manuel I e à hora do falecimento por não ter filho herdeiro, entretanto já falecido, é o próprio D. João II que designa o seu cunhado, D. Manuel I, como seu sucessor.

Não sendo os textos referidos notícias de última hora, mas sim um trabalho feito com tempo para ser publicado quando houver espaço disponível, é lamentável a falta de referenciação histórica dos textos.

No entanto, é de louvar que a autora em termos de cultura geral saiba que D. Manuel I sucedeu a D. João II.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Cultura Portuguesa

Por vários motivos os textos de Eduardo Lourenço merecem uma leitura sempre atenta.

Tal não podia falhar no texto publicado no PÚBLICO no passado dia 31 de Agosto de 2008, que a seguir se transcreve:



Adeus a Luciana

Eduardo Lourenço - 20080831

É grato devolver à grande lusitanista a dádiva da sua companhia e da sua erudição sem falhaHá professores que são ao mesmo tempo autênticos actores. Luciana Stegagno Picchio, musa cultural dos dois mundos que dividem a nossa língua, pertencia a essa raça. As suas intervenções nos múltiplos colóquios dos dois lados do Atlântico eram sempre um espectáculo de saber, de graça e de elegância. Partilhava esse talento com a amiga Cleonice Berardinelli, sapiente como ela, menos exuberante. À professora Luciana deve o Brasil uma já clássica História da Literatura, em tudo digna da grande filóloga e crítica literária que era. Quanto a Portugal, deve-lhe uma História do nosso teatro a todos os títulos comparável aos seus estudos dedicados ao Brasil.

Para muitos de nós, Luciana impôs-se-nos como uma das primeiras estudiosas estrangeiras de Pessoa, num momento em que o fenómeno heteronímico era ainda objecto de polémica, discussão e fascínio. Distanciada das nossas querelas domésticas, a grande filóloga italiana pôde abordar a questão com mais frieza e humor. É um dos estudos mais pertinentes que o Pessoa de há meio século mereceu. Mais tarde, um pequeno estudo sobre o mesmo Pessoa, de parceria com Roman Jakobson, deu-lhe uma notoriedade internacional. Antonio Tabucchi, seu estudante, compartilhou com ela a paixão por Pessoa, a quem dedicou, em italiano, uma antologia até hoje não superada. E com essa paixão uma intimidade cultural com as coisas portuguesas que marcará para sempre a sua original obra de ficcionista.

Grande conhecedora da literatura italiana, naturalmente, algumas vezes Luciana lamentou não ter dedicado aos seus autores famosos, de Dante a Leopardi ou de Pasolini a Primo Levi a paciente atenção que consagrou aos Gil Vicente, aos Camões ou aos Murilo Mendes e à língua portuguesa que ilustraram. O interesse pelas culturas alheias é sempre uma forma de exílio. Penso que o seu foi exaltante. O Brasil, mais ainda do que Portugal, foi, em sentido literal, um novo mundo para ela. Um novo mundo que a adoptou como criadora sua, e de algum modo a integrou na sua fabulosa cultura de matriz europeia e emigrante. Isso a compensou e consolou de não ter dado à pátria de Dante, que seu pai lhe ensinara a recitar na adolescência, aquele fervor que durante anos, num magistério frutuoso, iria reservar para uma outra língua. A nossa, como a sua, filha do Lácio.

Em tempos era corrente queixarmo-nos da imaginária falta de atenção dos outros pela realidade e excelência das nossas criações. O que devia espantar-nos é a extraordinária atenção que a nossa cultura mereceu a tanto estrangeiro que tantas vezes nos descobriu, estudou e nos revelou a nós mesmos. Luciana Stegagno Picchio pertence a esses peregrinos que, com saber e alegria, se perderam nos labirintos culturais de um país europeu que há um milénio partilha com culturas tão ricas e brilhantes como a da pátria de Luciana os mesmos sonhos. Na hora de os abandonar a um outro destino, é grato devolver a Luciana a companhia, a presença da sua erudição sem falha, nunca austera, secretamente divertida, com que ao longo dos anos percorreu e iluminou alguns dos mais obscuros rincões da nossa Cultura.

Vilamoura, 29 de Agosto de 2008